Nome aos bois

Dois livros para entender o "como" e o "porquê" desse 2021 distópico.

Locked groove é o último sulco do vinil, quando a agulha para no final de um dos lados. Não tem tradução boa para o português - ranhura bloqueada é técnica e sem graça demais.

É aquele momento em que as conversas avançam enquanto o disco está rodando, sem música alguma. Ao mesmo tempo em que busca outro disco dentro da capa ou vai trocar o lado, você continua uma história, ou começa qualquer assunto que valha a pena: drinques, viagens, livros, música, o que for.

O que fizer sentido na hora.


Intro

"A doença é fatal. Não há cura conhecida. O máximo que podemos fazer por esse pobre diabo parece ser, para mim, batizar essa doença em sua homenagem. Desse momento em diante, que todos os que acreditam que os americanos possam ser conduzidos facilmente da beleza à escrotidão, da verdade às narrativas construídas, da alegria à amargura, sejam diagnosticados com a doença de Hunter Thompson."

Kurt Vonnegut, A political disease. 1973, Harper's Magazine

(Soube desse artigo de Vonnegut por meio da newsletter do jornalista André Forastieri, que a cada final de semana traz bons textos e algumas presepadas. Se quiser assinar, clique aqui.)

Kurt Vonnegut escreveu isso a respeito de Hunter S. Thompson, autor famoso pelo que se convencionou chamar Gonzo Journalism. A ocasião? O lançamento do livro Fear and Loathing on the Campaign Trail '72 - que narra a campanha presidencial americana de 1972, quando o republicano Richard Nixon varreu o chão com George McGovern, do Partido Democrata.

Mal comparando, essa eleição americana foi quase como se o meliante que ocupa atualmente a presidência da República Federativa do Brasil tivesse sido eleito por maioria esmagadora já no primeiro turno da eleição de 2018. Nixon, na época, ganhou por poucos milhões no voto popular, mas o que caracterizou a lavada foi sua avalanche de votos no colégio eleitoral: levou 48 dos 50 Estados americanos.1

O artigo de Vonnegut foi premonitório: depois dele, muitos admiradores de HST, como Tom Wolfe, falaram que a obsessão por política acabou com o talento de Thompson - seu livro anterior, Fear and Loathing in Las Vegas, ou, ainda, seus textos mais curtos, traziam um frescor e uma anarquia que, segundo Wolfe e outros, foram aos poucos exauridos pela imersão de Thompson na política.

Hunter tratava de política, é certo; mas desde seu livro Hell's Angels, de 1967, ficava claro que ele se dedicava a mostrar as trevas por trás da aparente normalidade da sociedade americana - e a política era somente mais uma dessas facetas. Ricos esnobes e depravados do Kentucky Derby, ricos esnobes e depravados da America's Cup, policiais violentos e corruptos em uma convenção em Las Vegas, violência, racismo, a guerra estúpida contra as drogas - isso tudo aparecia nos escritos de Thompson. Não por acaso, tudo interligado com política. O que faz bastante sentido, quando se pensa que a política não existe num vácuo.

O próprio Hunter associava sua radicalização política com a Convenção Democrata de 1968, quando a violência policial (em uma cidade governada por um prefeito Democrata) revelou claramente o fascismo subjacente ao conservadorismo norte-americano. Antes mesmo de publicar seus melhores textos, Thompson já estava viciado em política, fascinado e assustado com a profundidade do buraco em que os EUA se encontravam, na sua perspectiva.

Hunter S. Thompson não foi engolido pelas trevas da cobertura política: na verdade, sua ‘doença’ vem de tudo o que o cercava - e do fato de não ver saída, no curto prazo, para essa situação. E, possivelmente, nem no longo prazo.


1.

Como diria Troy McLure, vocês devem se lembrar de mim de crônicas de viagens por lugares muito legais como Oaxaca, Berlim ou por textos sobre livros, filmes e discos escapistas. Mas o que poucos sabem é que eu sofro de uma doença: essa mesma que foi diagnosticada por Kurt Vonnegut.

Comecei esse Substack aqui para falar sobre assuntos que me interessam. Para escapar da realidade do ano (e do país) em que vivemos. Para evitar pensar em algo que não seja um bom livro, os discos do Bowie que mais gosto ou, ainda, algum filme legal. Mas, volta e meia, a doença se manifesta. E tem tudo a ver com a vida nesses tristes trópicos.

O Brasil de 2021 supera qualquer ficção distópica. É como se um roteirista inexperiente adaptasse um livro de J. G. Ballard, inspirado por filmes de Kubrick e David Lynch e com a cabeça cheia de ácido ruim anfetaminado, misturando tudo ao ponto de virar uma paródia exagerada e sem graça. É para qualquer um ficar doente, de fato, com os plot twists, os vilões óbvios e os lugares-comuns.

E é só a política? Não. Isso vai bem mais longe. O meliante que ocupa a presidência não é causa de nada: no máximo, pode ser culpado sozinho pela educação que deu aos filhos - ou talvez nem isso. Ele está mais para um catalisador de tudo o que estava latente no Brasil há décadas. Como disse Mano Brown, há algum tempo: esse aí é só o Brasilzão véio de guerra, que a gente já conhece. Mas, agora, passou a "existir" para todos.

E tento entender isso. Sempre leio, busco referências, retomo leituras da época das Ciências Sociais. É um prazer secreto: não trabalho com ciência política, mas me mantenho informado. E talvez seja o que alimente a doença. Mas não tenho como não tentar fazer relações entre o que leio e o que acontece hoje.

Começo por um livro que ajuda a entender como chegamos a esse ponto em que estamos: Como as Democracias Morrem, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Os dois pesquisadores de Harvard demonstram como a democracia pode ser subvertida por dentro de seu próprio processo e com o uso dos instrumentos democráticos.

O livro é didático ao criar uma tabela que serve como um bingo para detectar autoritários. Se o candidato cumpre algum dos requisitos da tabela, já significa problemas para o futuro. E, nos últimos anos, vários gabaritaram nos 4 campos:

  1. rejeição ou fraco compromisso com as regras democráticas;

  2. negação de legitimidade aos oponentes políticos;

  3. tolerância ou encorajamento da violência;

  4. disposição para restringir liberdades civis dos oponentes, incluindo a mídia.

Trump marcou ✅ em todos os quadrantes. Bolsonaro também. E o preferido da terceira via e sonho molhado da classe média leitora da Veja, Sergio Moro, gabaritaria rapidamente, caso saísse candidato a algum cargo político.

Não é um livro que interessa apenas a estudiosos, apesar das muitas referências a tópicos de ciência política. Pode ser lido por qualquer um que tenha curiosidade de entender como se dá a subversão da democracia hoje em dia - e não é com tanque nas ruas ou estado de exceção.

Mas apenas compreender o "como” não dá a dimensão do buraco em que estamos - afinal, temos, dia sim e outro também, a demonstração prática dos meios para se vandalizar a democracia. Nesse momento, talvez, é mais importante ainda entender o “porquê".


2.

Why Nations Fail é, quem sabe, o livro que melhor demonstra qual é o objetivo por trás dessa destruição progressiva da democracia.

Daron Acemoglu e James Robinson apresentam, no livro, uma hipótese de por que uma nação prospera enquanto outra, que pode ter até mesmo similaridades culturais e geográficas, não consegue progredir. Estudam vários casos de países em todos os continentes, expondo diferenças, semelhanças e explicando o motivo de teorias ultrapassadas, como o determinismo geográfico, climático ou genético, não darem conta dessa variedade de estágios de desenvolvimento econômico e social.

Já dou um spoiler, uma vez que o livro é muito mais que isso: a teoria fundamental dos dois autores é que um círculo vicioso de instituições econômicas e políticas, manejado por elites de cunho “extrativista”, pode minar uma sociedade. Extrativismo, aqui, é usado no sentido de ações de uma oligarquia predatória, que não tem qualquer projeto de país além de enriquecer obscenamente às custas da maioria da população.

O termo é muito bem escolhido: remete imediatamente às fazendas de exploração características do colonialismo. A diferença é que esse extrativismo sobre o qual Acemoglu e Robinson falam é levado a cabo pelas elites nacionais, como se fossem um poder colonial. Agem em detrimento da maior parte da população, com um círculo vicioso composto por políticas econômicas expropriadoras, decisões que levam em conta interesses paroquiais de uma minoria e estruturas econômicas e políticas exclusivistas.

Os dois pesquisadores apontam que os países que conseguiram desenvolver estrutura democrática, políticas públicas inclusivas, distribuição da renda nacional por meio de instituições políticas e econômicas sólidas são os que foram mais bem-sucedidos em termos desenvolvimentistas.

O resumo simplista que fiz acima não tira a graça do livro: vale gastar um tempo lendo. Infelizmente, não é fácil achar a tradução para o português - em sebos, está custando alguns botijões de gás. Então o caso é fazer o Paulo Guedes e ler no original mesmo, se possível.

E um spoiler mais interessante ainda para quem mora nessas terras onde, em se plantando, tudo dá: esse país tropical esquecido por Deus aparece no último capítulo, Compreendendo prosperidade e pobreza. O Brasil é citado pelos dois professores como um exemplo de um país que conseguiu o proverbial "break the mold" (numa tradução livre: Quebrar o padrão, ou quebrar o paradigma). No livro, é como se fosse o oposto da Argentina, que é desconstruída a cada vez que passa por uma das suas crises cíclicas. O exemplo citado é o da reconstrução da democracia brasileira a partir das eleições proporcionais de 1974 e das greves do ABC de 1978, quando uma coalizão ampla e democrática de centro-direita e esquerda levou ao fim o regime militar de cunho claramente extrativista que existia desde 1964.

Os autores citam a continuidade democrática e a aceitação das regras do jogo democrático pelos atores políticos entre os anos 1980 e 2000 como a chave para o país sair do ciclo vicioso do extrativismo e entrar no caminho da prosperidade. O livro, publicado em 2012, termina com a observação de que essa mudança brasileira ocorreu de forma endógena, com a criação de instituições políticas e econômicas inclusivas, o que resultou em crescimento e melhores condições de vida. Ainda cita que o Brasil poderia ser o primeiro país latino-americano a ter peso diplomático real no cenário internacional e que uma reversão desse progresso alcançado seria improvável, dada a propensão demonstrada pelos atores políticos brasileiros em respeitar as regras democráticas.


3.

Acemoglu e Robinson são dois professores respeitados do MIT e da Universidade de Chicago, respectivamente, e cercam-se de informações consolidadas e de pesquisas aprofundadas para suas análises. Por conta disso, o livro tornou-se um dos mais importantes raciocínios sobre a riqueza das nações no século XXI e documento-chave para se entender o mundo contemporâneo. Mas não lhes deu uma bola de cristal.

A desconstrução do Brasil a partir de 2014 parece demonstrar a fragilidade da tese: afinal, como é que, em poucos anos, uma nação que estabilizou-se progressivamente por décadas, com eleições regulares e cada vez maior confiança no sistema eleitoral, que fez uma nova Constituição virtuosa, que controlou uma hiperinflação e teve anos seguidos de crescimento na primeira década do século XXI pôde retroceder tanto, em tão pouco tempo?

Ao contrário do que possa parecer, o que houve no Brasil só corrobora a tese dos dois estudiosos e faz coro aos outros exemplos que eles enfileiram no livro. A explicação é simples: foi exatamente o fato de uma parcela dos atores políticos responsáveis por esse sucesso de décadas ter mudado sua postura de forma radical e repentina que levou a essa situação.

E aí voltamos ao bingo antidemocrático proposto no livro de Levitsky e Ziblatt, Como as democracias morrem. Relembrando e preenchendo a cartela:

  1. rejeição ou fraco compromisso com as regras democráticas - PSDB contesta o resultado das urnas na eleição de 2014 sem ter qualquer indício de fraude, apenas por conta de um playboy ser mau perdedor. Na verdade, não apenas isso - parece ser muito mais uma aposta arriscada derivada do medo de nunca mais voltarem ao poder. Só para exemplificar: a Suécia, de 1932 a 1973, teve sucessivos governos do Partido Social-Democrata, como o professor emérito da FFLCH Fernando Henrique Cardoso sabe bem - e foi o que ele sempre alertou que poderia acontecer no Brasil.

  2. negação de legitimidade aos oponentes políticos - desqualificar adversários políticos por supostas violações da lei, para impedir sua participação na arena política, é o que a Lava Jato fez a partir de 2015: pouco importava se havia provas dos crimes, o importante era chegar à inelegibilidade e à desmoralização dos adversários de um determinado grupo.

  3. tolerância ou encorajamento da violência - tacitamente encorajar a violência ao se recusar a condená-la ou puni-la? Sim, foi o que houve com a total liberdade de ação proporcionada a Bolsonaro e seu grupo, vândalos contumazes da democracia.

  4. disposição para restringir liberdades civis dos oponentes, incluindo a mídia - ameaçar tomar medidas legais ou ações punitivas contra críticos em partidos rivais, sociedade civil ou mídia, ou apoiar leis e políticas que restringem protestos e críticas ao governo foi o que mais se viu na repressão aos protestos contra o governo Temer, por exemplo. No atual governo, nem se fala: o número de jornalistas perseguidos é recorde.

Ou seja, a porta do inferno foi aberta não pela milícia bolsonarista; antes, quem escancarou a porta foi um grupo - centro-direita formada por PSDB e PMDB - que havia participado da construção democrática durante anos e, de repente, voltou as costas para tudo o que havia ajudado a construir.

E é sintomático que os artífices dessa manobra tenham sido pessoas como Aécio Neves, parte de uma oligarquia política com atuação altamente extrativista em seu Estado natal; Michel Temer, velho quadro da elite política e econômica há décadas; ou Sergio Moro e General Villas-Boas, parte de uma oligarquia de funcionários públicos que orbita em torno dessas mesmas elites extrativistas, como jagunços ideologicamente identificados com seus mestres.

O atual presidente da república somente aproveitou a chance que lhe foi dada após o impeachment de Dilma pela radicalização política e pela sanha moralizante criada pela Lava jato. Cavalgando com essas prerrogativas, vandaliza a democracia de outra forma - bem mais aguda, voraz e agressiva. Novamente, cito Levitsky e Ziblatt:

Em cada caso, elites acreditaram que o convite ao poder iria controlar o outsider, levando a uma restauração do poder dos políticos tradicionais. Mas seus planos deram errado. Uma mistura letal de ambição, medo e erro de cálculo conspiraram para levá-los ao mesmo engano fatal: entregar de bom grado as chaves do poder para um autocrata em formação.

Foi o que aconteceu com Hitler, Mussolini, Fujimori, Chávez e outros, como os autores demonstram no livro. E, possivelmente, foi o que aconteceu no Brasil pós-2014 - o outsider demonstrou ser impermeável ao controle de seus criadores.


...

De volta à "Doença de Hunter S.Thompson".

Há dias em que acordo já disposto a me irritar com o que sei que vou ler. Abro os olhos e sei exatamente o que vou sentir. Sei com o que vou me indignar. E, ainda assim, sempre há surpresas - nada do que imaginei me prepara para o que eles conseguem fazer de pior. Não importa o esgoto, sempre conseguem chafurdar mais.

Confesso que não abaixo a guarda. E cada vez mais sigo adiante, procuro outro artigo para ler, outro tuíte, vou atrás, tento saber. Como se tivesse um cilício amarrado constantemente na perna. Uma penitência para lembrar do buraco em que estamos.

Mas, em algum momento, leio algum bom livro, daqueles que eles desprezam. Ouço música. Faço um drinque. E outro. E outro. E, depois, alguma comida boa.

E, agora que já temos as duas doses da vacina, encontramos amigos e ficamos até fechar o bar, cada um em um canto, com distanciamento, ao ar livre, mas ainda assim, juntos. E bebemos mais vinho, e mais drinques, e vemos filmes bons e ouvimos músicas boas, e lembramos dos tempos em que não tínhamos de lidar com essa gente que agora, todos os dias, aparece nas notícias de jornal; essa gente que parece um bando de demônios libertados de alguma garrafa ancestral, finalmente livres após a digitação de dois algarismos em um instrumento eletrônico, em 2018.

A resistência se dá ao preencher todos os espaços. Ao não deixar que eles avancem e façam todos virarem autômatos tristes como eles são, que repetem sem pensar palavras de ordem sobre um país cuja cultura odeiam e sobre um Deus mesquinho que só existe na cabeça deles.

Resistimos ao não deixar que nos expulsem das ruas. Ao encontrar amigos, beber, ir a shows, aplaudir a cultura que eles desprezam, fazer tudo aquilo que eles sequer sabem o que é, mas que abominam mesmo assim.

É não deixar que eles tenham mais poder. Como já aconteceu antes, em algum momento eles voltam para o lugar de onde vieram. Todos esses monstros cafonas com roupas tortas, fardas feias, medalhas sem mérito; esses palhaços horrorosos com terno verde de supervilão, esses médicos com seus jalecos sujos de sangue inocente das centenas de milhares de mortos.


Em 2 de outubro de 2021, as ruas estarão cheias de doentes como eu. Ou de gente que não se contaminou ainda, mas que luta da mesma forma. Quanto menos estiverem contaminados por essa doença, melhor; não terão tanto ódio. Porque um dia isso tudo vai passar. E vamos precisar reconstruir, mais uma vez, aquilo que destruíram.

Mas tudo bem. Já fizemos isso antes.

"I hung up and drank some more gin. Then I put a Dolly Parton album on the tape machine and watched the trees outside my balcony getting lashed around in the wind. Around midnight, when the rain stopped, I put on my special Miami Beach nightshirt and walked several blocks down La Cienaga Boulevard to the Loser's Club."

último parágrafo de Fear and Loathing on the Campaign Trail '72, de Hunter S. Thompson. Simon and Schuster, 1972

PARA SABER MAIS, EM 5 CLIQUES

  1. Hunter S. Thompson tem uma obra vasta e todos os livros valem a pena. Se tiver de ler um só, Fear and Loathing in Las Vegas é a aposta certeira. Ou pode ver o filme baseado no livro também (pena que só alugando, tem em streaming). No futuro, quero falar mais de HST, um dos grandes.

  2. Why Nations Fail em tradução para o português não é fácil de achar - a versão nacional está esgotada e só se encontra em sebos. Mas vale buscar em inglês, se for o caso, ou tentar ler pela internet (dica: existe online, em PDF. Mas não dou o link aqui e, se alguém perguntar, não fui eu que falei).

  3. André Singer é um dos grandes professores de Ciência Política do Brasil. Tive aula com ele e é, também, uma das pessoas mais didáticas que conheço, tanto ao vivo quanto escrevendo. Seus livros valem muito para entender o Brasil das últimas décadas.

  4. Para quem quiser se aprofundar, a literatura de Ciência Política é vasta e merece atenção. Mas, muitas vezes, parece muito voltada para quem já é iniciado. Um bom ponto de partida nos livros de interpretação do Brasil, mas tomando o devido cuidado, é com o gênio da família: Raizes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, que é um livro curto e sempre suscita a curiosidade para se entender mais sobre o país - principalmente, compreender sua frase provocadora de que a democracia no Brasil sempre foi um mal-entendido.

  5. E para quem quer ler mais sobre o que Daron Acemoglu, autor de Why Nations Fail, acha do Brasil atual, aqui vai uma recente entrevista para o Valor Econômico, reproduzida por outro site.

1
Nos EUA, o voto para presidente é indireto, teoricamente: grosso modo, o voto popular serve para eleger delegados em cada estado e que, meses depois, se reúnem em um colégio eleitoral e confirmam a vitória do candidato que teve o maior número de votos populares em cada estado. Quem ganhar mais estados, leva a presidência. Pode acontecer, portanto, de o candidato com o maior número de votos populares no país inteiro não ser o vencedor no colégio eleitoral, se não ganhar no maior número de estados. Exemplo: candidato A tem no total 66 milhões de votos, mas ganhou em 20 estados; candidato B tem no total 63 milhões de votos, mas ganhou em 30 estados. Candidato B leva a eleição por ter mais votos no colégio eleitoral (foi assim em 2016. O “candidato B" do exemplo é Donald Trump).

obs: o título do texto vem da música dos Titãs, que merece, há tempos, uma atualização para o contexto de 2021.