A última valsa
Segunda parte da retrospectiva da música: melhores músicas e shows do ano.
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Dos shows.
Um ano intenso para música ao vivo. Desses de ter que fazer escolhas, já que além do tempo para conseguir ir a tudo, é preciso também continuar pagando boletos - que teimam em chegar, mesmo que indesejados.
Música ao vivo é cada vez mais a bola da vez para artistas. Com o streaming completamente dominado por gente que poderia estar vendendo tomates, peças de metralhadora ou criptomoeda, discos de estúdio não são mais o que eram antes e é ao vivo que seu artista preferido vai mesmo pagar as contas. Antes, turnê existia para promover o disco recém-lançado; hoje, lançam-se discos para justificar turnês.
Daí, em parte, a profusão de shows ao vivo e de superstars que, antes, não pisavam na América Latina antes de terem iniciado o processo com a previdência social. Agora, tem um festival a cada final de semana (ou mais de um), bandas tocam em diferentes cidades do interior do Brasil, artistas que estão bombando no hemisfério norte vêm para cá quando estão no auge. Tem um lado positivo e bem pouco citado: artistas nacionais conseguem encher muito mais suas agendas, para além da monocultura do que faz sucesso com o grande público. Muitos artistas que antes dependiam do circuito Sesc agora conseguem viabilizar shows e participar de festivais sem tanta dificuldade. Só como exemplo, outro dia mesmo Ney Matogrosso lotou estádio de novo, depois de décadas tocando em lugares bem menores.
Apesar de ter evitado ir a festivais esse ano - em parte, por conta da grana, já que os preços dos ingressos também tiveram um aumento exponencial - consegui ver muita coisa boa. Inclusive, uma semana de novembro teve tanto show que precisei escolher o que ver. Mas tem sempre muito que acontece além dos grandes festivais e 2025 teve espaço para tudo e mais um pouco. Então, sem mais enrolação, aí vai a lista dos melhores shows do ano.
MELHOR SHOW EM LOCAL HISTÓRICO - Kamasi Washington, Sala La Riviera, Madrid, 24/03/2025
La Riviera, em Madrid, é uma daqueles locais da música ao vivo que são históricos por si, como o Fillmore em San Francisco, Paradiso em Amsterdam, Roundhouse em Londres, e outros. Com 60 anos, o La Riviera é o principal palco de Madrid para shows médios; pense em algum artista que você goste, que é quase certeza que ele já tenha passado por lá.
A decoração com falsas palmeiras kitsch no bar contrastava com o frio do março mais chuvoso em Madrid em décadas. No palco, Cumpadi Washington nunca decepciona: deve ter sido o sexto ou sétimo show dele que vi, e continua genial. Banda incrível como sempre e terminou a noite com uma versão de Prologue, uma das músicas que mais gosto do grande Astor Piazzolla. Kamasi mistura tudo, revitaliza o jazz e mostra que ainda tem muito a se fazer com um gênero que continua a ser a base para experimentação e mistura.
MELHOR SHOW INTIMISTA - Arto Lindsay, Bona Casa de Música, São Paulo, 08/07/2025
No pequeno palco do Bona, Arto Lindsay está sozinho com uma guitarra vintage Danelectro verde-água. Há outras três ou quatro guitarras apoiadas em suportes de metal pelo palco - mas parecem ser só uma instalação de arte, uma vez que Arto não troca de instrumento nenhuma vez e não há banda tocando com ele.
Platéia sentada e comportada. Parece mais um evento literário ou uma palestra em algum auditório da PUC, que é ali perto. Fui sem saber muito o que esperar: algo da No Wave/Avant Garde do começo da carreira, na banda DNA? Ou o funk/pop/indie do duo Ambitious Lovers, no final dos anos oitenta? Ou, ainda, a influência imersiva de música brasileira dos anos recentes? O mais gringo dos brasileiros ou o mais brasileiro dos gringos não é fácil de definir. Mora no Brasil há anos e fala em português perfeito, com leve sotaque.
Arto manda ver uma distorção e uma barulheira de arrepiar com uma única guitarra, canalizando tudo isso pelos pedais de distorção que fazem as canções parecerem vindas de um rádio altíssimo e fora de sintonia. Uma reinterpretação radical de suas músicas mais sutis, que estão no streaming nas versões originais. Quem sabe faz ao vivo, e Arto cria a percussão com um pedal de repetição, insere improvisos como se fosse um sampler orgânico, canta em inglês e português - muitas vezes, mudando a língua da letra original.
“Não me pegue não, não, não
Me deixe à vontade
Deixe eu curtir o Ilê
O charme da liberdade”
Arto Lindsay manda ver um trecho do Ilê Aiyê em uma de suas músicas, sobre o feedback de guitarra e a percussão estranhamente dançante. "Não existe uma só Bahia, existem muitas Bahias. Pelo menos, enquanto eu estiver vivo”, diz Arto, logo depois. Grande show de um homem só.
MELHOR SHOW DE FESTIVAL - St. Vincent, Popload Fest, Parque do Ibirapuera, São Paulo, 31/05/2025
Já falei aqui do show de St. Vincent. O único defeito é que foi curto. Recentemente, Anne Clark fez cover na TV americana de Young Americans, de David Bowie, e tem tudo a ver: St. Vincent é o mais próximo que temos de Bowie ou Talking Heads atualmente. Genial.
MELHOR SHOW NACIONAL - Dom Salvador + Amaro Freitas, SescJazz, Sesc Pompéia, São Paulo, 16/10/2025
Dom Salvador, 87, lendário pianista, é um dos mais influentes músicos brasileiros vivos, tocou em discos fundamentais da música brasileira e liderou a banda Abolição, nos anos sessenta e início dos setenta. Mudou-se para os EUA há décadas e vive por lá até hoje, como mostrou o documentário Dom Salvador & Abolição, vencedor do festival In-Edit de 2020. Amaro Freitas, talvez o mais importante músico brasileiro atual, é de Recife e tem menos da metade da idade de Dom Salvador. O encontro dos dois foi um dos melhores shows que vi na vida e disparado o melhor show brasileiro de 2025. Já havia visto, meses antes, a primeira apresentação de Amaro no formato de septeto e, em 2024, vi outros dele e ainda escolhi seu disco Y’Y como o melhor nacional. Dois grandes pianistas, improvisando juntos com uma banda de grandes músicos, Amaro reverenciando o mestre e emocionado por dividir o palco com Dom Salvador. Show histórico, esbanjando humildade, talento e simpatia e a mais perfeita tradução do que Amaro chamou de MPB - Música Preta Brasileira. (e ainda perdi outros shows de Amaro em São Paulo esse ano - tenho certeza que seriam também inesquecíveis, cada um à sua maneira).
MELHOR SHOW DO ANO (agora sim) - Massive Attack, Espaço Unimed, São Paulo, 13/11/2025
Massive Attack é o grupo mais vital na música hoje: se não criaram o Trip-Hop, são os mais reconhecidos no estilo; continuam relevantes musicalmente e, ainda, se posicionam inequivocamente sobre o que acreditam. Tenho uma teoria: se você não sabe o que achar de determinada questão, veja o que Massive Attack diz - pode acreditar que estão do lado certo.
Só pela música já valeria a pena: finalmente a apresentação que o disco Mezzannine (de 1998) merecia, com várias músicas do disco e muitas delas cantadas por Elizabeth Fraser, vocalista convidada e que fez história antes no Cocteau Twins. Pela primeira vez, vi músicas de um dos discos que mais gosto.
E olha que vi Massive Attack na turnê do Mezzannine. Era uma banda à beira da dissolução: o disco havia tido um processo difícil, era sombrio e muito mais pesado do que os dois primeiros. Do núcleo original, sobraram Grant Marshall e Robert Del Naja, que assumiram de vez o comando. E detalhe: no show de 1998, tocaram apenas duas ou três músicas do disco recém-lançado, claramente ainda não testado ao vivo. Mesmo assim, foi um dos melhores shows que vi na vida - e na mesma noite do primeiro show que vi do Kraftwerk.
Ao vivo, a experiência de um show do Massive Attack é como nenhuma outra: o telão ao fundo é um constante fluxo de informações, imagens, verdades escondidas. Parece uma transmissão pirata de uma revolução em curso. Milita pelas causas certas e fala o que tem que ser dito, sem passar pano. Ataca Trump, Musk, superbilionários e outros canalhas, expõe o projeto totalitário de Israel na Palestina, advoga pela libertação de presos políticos, alerta para crise climática e desmatamento. Não deixa nada de fora. Antes do show, meio como emboscada, deram voz para indígenas militantes para falar sobre marco temporal, COP30, sacanagens mil que os povos originários sofrem. Show pensado nos mínimos detalhes: é preciso ter compensação da energia gasta e parte da renda é doada para entidades de defesa da Amazônia e dos povos indígenas.
Não é só discurso - a projeção dinâmica ao fundo mistura-se com a música poderosa e é impossível tirar os olhos do palco por um minuto sequer. Raras vezes vi algo que tem tanto impacto e que fica na memória por muito tempo.
(E ainda teve abertura escolhida a dedo, com Cavalera Conspiracy, dos irmãos Max e Iggor. Pena que não houve interação alguma entre Massive Attack e os irmãos Cavalera. Mas valeu muito, inclusive pelo reconhecimento da melhor banda brasileira dos últimos 40 anos).
Do Wilco.
MELHOR SHOW DO WILCO - Wilco, C6Fest, Parque do Ibirapuera, São Paulo, 25/05/2025
Jeff Tweedy e Wilco aqui nesse locked groove são como Chico Buarque para a Câmara Brasileira do Livro (CBL): basta o filho do Sérgio passar na calçada em frente à CBL que já sapecam um prêmio Jabuti para o cara.
Wilco é, no fundo, Jeff Tweedy, o cara mais gente boa do rock, tocando com caras legais, fazendo coisas legais. Tem prestado bons serviços há muitos anos. Em decisão monocrática, a partir de agora vai ter um prêmio anual para Wilco e Jeff Tweedy, não importa em qual categoria.
Tive trabalho para escolher: tem melhor nome de música, com Lou Reed was my babysitter, do disco solo de Jeff Tweedy; melhor álbum triplo com Twilight Override, disco solo do Jeff; também poderia ser por melhor participação especial, com Jeff e seus filhos Spencer e Sam, no Festival de Hannukah do Yo La Tengo, em Nova York, em dezembro. Mas, ao final, acabei decidindo pelo show do C6Fest, em maio.
Já na primeira música, Jeff está com lágrimas escorrendo pelo rosto e fala “poderíamos nos mudar para cá, não?". No palco, músicas de todas as épocas da banda (e , ainda assim, muita música importante ficou de fora). Nels Cline, guitarrista que está no Wilco desde 2005, faz solos impressionantes e é praticamente um maestro para os outros, que olham com reverência. O público da metrópole irmã gêmea mais feia de Chicago aplaude sem parar, canta junto, sabe todas as letras; quando não tem letras, canta as partes de guitarra. No final, depois de uma hora e meia, a sensação é que poderia ter tido mais umas horas de show - e ainda seria pouco.
Das músicas.
Não foi um ano em que ouvi muitas músicas avulsas: no final, a maior parte das músicas que mais gostei vieram de bons álbuns. Com isso, a experiência pode ter mais elementos do que só a boa e velha música pop de poucos minutos e refrão grudento. Mas vi que há um fio condutor geral: a maior parte é de músicas que entram num contexto pop, seja dançante ou, no mínimo, com a cara de que podem ser hits num universo paralelo.
SÓ TENHO BIP, Karnak
Não deu para resistir a essa baladinha pós-punk brega do Karnak, que faz parte, talvez, de um subgênero que é quase um guilty pleasure: as músicas de paulistano que falam da cidade escrota mais inspiradora que você possa imaginar. Na melhor tradição do Joelho de Porco, Adoniran, Vanzolini, Ira!, Guilherme Arantes e muitos mais, mostra que até São Paulo pode ser um bom cenário para uma canção pop grudenta.
JUST TWO GIRLS, Wolf Alice
Wolf Alice poderia ser uma banda indie meio genérica, mas tem muito mais a mostrar do que a concorrência. O álbum The Clearing tem muita música boa e ficou na minha lista dos melhores do ano, publicada na edição passada. Essa música aqui tem a maior cara de ter vindo direto de 1978, de um top 10 de verão numa rádio FM, escondida entre uma música do Fleetwood Mac e outra do Heart.
SUGAR ON MY TONGUE, Tyler, the Creator
Tyler resolveu lançar um disco, DON’T TAP THE GLASS, dançante e descaradamente pop, bem no meio da turnê do anterior Chromakopia (que foi um dos melhores e mais estranhos discos de 2024). Gostei, mas as músicas individualmente se destacam mais do que o disco como um todo. Essa aqui seria hit single em qualquer época. Grande canção, de um dos caras mais importantes da música atualmente.
LOOK WHAT YOU’VE DONE, Radio Free Alice
Os australianos do Radio Free Alice são uns molecões da Gen Z que nasceram quando já existia Napster, veja só. New Wave/Pós-punk naquele jeito meio The Cure + Legião do começo + Lado B dos Smiths + primeiro disco do New Order. Ainda não lançaram LP, mas já têm alguns EPs bem legais; o deste ano tem grandes músicas, mas essa música de 2023, que eu não conhecia, foi a que teve mais rotação aqui - ouça e tente não botar no repeat depois. Têm futuro, nem que seja para fazer uma nova versão do Dois, do Legião Urbana.
SPIKE ISLAND, Pulp
O mundo é um lugar bem melhor quando existe música nova do Pulp. Essa aqui foi o single principal do primeiro disco deles em 24 anos.
CATCH THESE FISTS, Wet Leg
Uma vez li alguém falar que os grooves do Gang of Four eram ‘infecciosos’. Na grande tradição do pós-punk, essa música do Wet Leg entra na mesma definição, com uma guitarra que pega na hora e não larga mais.
Da música (de outros anos).
Sempre ouço muitas músicas de outros anos ou décadas. Esse ano, a alta rotação aqui vem de um antigo predileto da casa: Luis Alberto Spinetta.
Assisti Spinetta ao vivo no Niceto Club, de Buenos Aires, há mais de 15 anos. Nem sabia de quem se tratava - naquela época, informação sobre artistas de países aqui do lado não chegavam muito fácil. Era um show intimista, em que Spinetta tocava sentado um monte de músicas de sua fase mais tango-jazz-rock, meio um Steely Dan e outros progressivos ou soft rock dos setenta. Achei bom, mas não tirou a Terra do eixo.
Aos poucos, fui ouvindo mais de Spinetta, especialmente a partir do streaming. Um dos grandes nomes do rock argentino, tem músicas incríveis em todas as fases da carreira. Eu, que não tinha noção nenhuma de quem era antes desse show, passei a ouvir muito e a admirar cada vez mais.
El Anillo del Capitán Beto, essa música aí embaixo, saiu no disco El Jardin de los Presentes, de 1976, da banda Invisible. Era um supergrupo criado por Spinetta, com outros músicos de bandas famosas da cena de Buenos Aires.
Como Spinetta fala no começo do vídeo, é a história de um astronauta argentino - com todas as implicações óbvias que isso traz. Com um jeito meio de El Eternauta, o grande clássico das HQs argentinas, é a história de um motorista de ônibus de Buenos Aires, transformado em piloto de uma nave precária e toda cheia de gambiarras, que vaga sem destino pelo Cosmos. No dedo anelar, Capitán Beto leva um anel que o protege dos perigos. Sobre o painel de instrumentos, o piloto leva uma foto de Carlitos, uma pequena imagem de um santo e uma bandeirola do River Plate, time do coração de Spinetta (que sabe como poucos unir sofisticação intelectual com o popular - afinal, é o cara que batizou de Artaud um dos grandes discos de rock latino-americano, de sua época no Pescado Rabioso).
Capitán Beto é um Major Tom portenho, na tradição de músicas dos anos setenta (como Space Oddity ou Rocketman) em que o espaço sideral é metáfora - e, também, em que viagem espacial não tem nada a ver com o que algum engenheiro cabaço e sem imaginação idealiza.
O vídeo abaixo é de 1984, de um programa da TV argentina. Momentos clássicos: a conversa mole de Spinetta olhando para a câmera, falando com a família que o está assistindo (o filho Dante Spinetta teve depois sucesso nos anos noventa, com sua própria banda); o clássico acorde inicial da música, em que alguém já comentou “Argentina, país onde um acorde é comemorado como um gol"; e a cara de alegria sincera de El Flaco Spinetta com a reação da plateia.


