Tempos violentos
A arte nos salva, na verdadeira Era dos Extremos.
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Intro.
Hobsbawn que puxe meu pé, mas a verdadeira Era dos Extremos parece ser o século XXI.
(Peraí, acho que vale um resumo rápido e cabeção, antes de entrar no tema.)
O historiador britânico Eric Hobsbawn escreveu uma história da humanidade desde a Revolução Francesa. Tudo meio eurocêntrico, mas tá valendo. São quatro volumes, cada um denominado como uma Era: da Revolução (1789-1848), do Capital (1848-1875), do Império (1875-1914) e, finalmente, dos Extremos (1914-1991), em que Hobsbawn cria a definição de “breve século XX”, um curto e intenso período com guerras mundiais, revoluções, crises e transformações tecnológicas, econômicas e sociais aceleradas.
São livros bons para quem não é historiador e dão uma geral no que foi esse período. A análise de Hobsbawn tem muito a ver com sua formação marxista e deixa bem claro a dívida com o bom velhinho Karl.
Mas Hobsbawn não é o tema aqui, e nem mesmo a História é. O velho comunista criou um nome bem bom para o último volume, mas talvez revisasse sua opinião se ainda estivesse vivo - morreu em 2012. Se bem que, com 108 anos, não merecesse ter que lidar com esse buraco em que nos metemos. Por isso, defendo aqui: a verdadeira era dos Extremos parece ter, na verdade, se iniciado a partir de 2001.
Já aconteceu tanta coisa nos últimos 25 anos, com tantas inovações tecnológicas, tanto retrocesso que já parecia superado e tanta crise em todas as áreas, que dá vontade de dormir e só acordar no século XXI. Hobsbawn teria material demais para teorizar e falar de tudo isso e mais um pouco. Mas, como diz a camiseta, estou cansado de viver tempos históricos. E, de fato, não estou muito animado para descer por essa vereda.
E nada de convidar para cá gente feia, deselegante e dissimulada - já fiz isso quando falei do governador-residente de São Paulo. Deixe que morram pra lá. Para variar um pouco, agora eu quero falar de algo bem mais leve, divertido e inconsequente, mesmo que nem seja tão leve assim.
Não resisti a furar a fila: esses últimos meses me reconectaram com tanta coisa que não tem como esperar mais 80 dias para escrever um texto sobre o que li, vi e ouvi no ano, como faço na quase tradicional retrospectiva de dezembro.
Escapismo é bom e eu gosto. Admito que tem horas em que prefiro rodar pela milésima vez uma música boa do que esbravejar sobre anistia, Centrão ou saber da última do Jair. Tem hora pra tudo.
Ao mesmo tempo, não tenho como evitar de falar do que me ajudou a atravessar esse 8 e 1/2 criativo que me deixou longe daqui por tanto tempo, nos primeiros meses de 2025. A real é que, quando precisamos, ela sempre está lá, seja em forma de filmes, literatura ou, especialmente, música. Sim, ela mesma. A boa e velha arte.
(Crédito onde devo dar crédito: a definição do 8 e 1/2 acima é cortesia do Marcos Alvarenga, um dos leitores desse Locked Groove que eu ainda não conheço pessoalmente, mas que sempre é bem vindo e só tem comentário certeiro).
1. Da música
Já escrevi antes que aqui não é espaço para crítica cultural.
(ah, sério? mas é o que você mais faz).
Então, como eu escrevi lá em cim
(Diz aí vai, você fala que não faz isso, mas quer logo criticar alguém)
Olha, eu não quero fazer crític
(Sei, sei, olha aí o dedo coçando para falar mal de alguém, mas disfarça. Diz que só quer escrever sobre os shows que gostou, né?)
Como eu falava no começ
(Tadinhooooo…viaadooooo!!!!!!…”eu só quero falar do que eu gosto” 🤣🤣🤣🤣)
Bom, usar emoji é cringe demais. Mas não vou cair nessa e
(Vai, vai, chuta a boca logo, manda ver!)
Ok.
Para quem chegou agora no rolê, Rock era um gênero musical predominante na música pop entre as décadas de 1950 e 2010, mais ou menos. Hoje, vive de poucos espasmos post-mortem, que ainda fazem o cadáver revirar por alguns instantes.
E aí que está o problema. Rock hoje é representado por gente como o Venice Dad David Grohl, aquele cara que parece ser o gêmeo morto no nascimento do baterista do Nirvana. Ou, então, por aquele cabação do Coldplay, Chris Martin. Gente que você, mulher, evitaria na festa da firma, meio aqueles héteros sensíveis (só que não) que vêm puxar papo com a boca mole e cerveja artesanal na mão. Hetéro que se diz “desconstruidão”, que começa frase por “Veja bem...”, e que anda com desenvoltura por aí, com aquela certeza de que tá tudo dominado, sempre bloqueando a calçada quando vai para o quilão com os parças do trabalho, todos de barbinha aparada e calça jeans empapada no tornozelo. Ou seja, gente chata pra caralho.
A verdade é que o Rock hoje em dia passa longe do cromossomo XY. Ou, então, até passa perto em alguns casos, mas não se deixa pegar pelo mainstream. Numa época em que o Hip Hop virou música de festa de banco de investimentos na Faria Lima, o Rock não está mais na moda. Sequer está no saldão ou nos outlets. Morreu de morte morrida ou matada.
Mas eu vi o futuro do rock passar diante dos meus olhos. Ou o presente, sei lá. O importante é que o pulso ainda pulsa.
Começou no C6Fest, melhor festival de São Paulo, no melhor lugar, Parque do Ibirapuera (e sim, quero usar e abusar do parque privatizado quando é do meu interesse). Lugar lindo, arborizado, gente bonita, sincera, elegante. E estávamos ali, na platéia, com umas árvores no meio, o que atrapalha se você fica bem no centro. Andamos pela lateral da tenda e chegamos mais perto do palco.
A banda que vai tocar é The Last Dinner Party. Cinco meninxs que surgiram do nada e foram uma sensação na imprensa britânica, que vive nos escombros de um hecatombe musical-nuclear que tornou a crítica musical obsoleta.
Todas têm jeito de vítimas do Neil Gaiman. Estilo Vitoriano-moderno-descolado, multiculturais. Nerdíssimas no que fazem.
Uns gaiatos apareceram por aí falando “Mas, gente, elas apareceram outro dia, como é que tocam tão bem, compõem tão bem? É armação de gravadora, jabá, Milli Vanilli multiplicado por cinco, né, meo?”
Legal, apesar da conta errada no Milli Vanilli. É do jogo ser desconfiado, ainda mais se você é Geração X, barba grisalha e roupa estilo Uniqlo-Uncle, meio como Leonardo DiCaprio no novo filme de Paul Thomas Anderson. Como dizia o tio William Burroughs, não é porque você é paranóico que não quer dizer que não haja gente por aí para te pegar.
Mas o engraçado é que ninguém nunca levantou essa possibilidade de armação de gravadora quando são os white-boys-with-guitars que o genial John Peel criticava (o Kid Vinil dos gringos, para reabilitar um grande nome brasileiro).
Apareceram tantos Strokes por aí nos últimos anos que todomundo, essa entidade mágica, saudou como a ressurreição do Rock. Agora, que são cinco mulheres tocando power chords, todomundo vira um tiozinho dos anos sessenta que acha indecente o cabelo do Mick Jagger e só gosta daquilo que veio antes.
Elas lançaram um disco só e alguns covers (o novo sai em 17 de outubro de 2025). E o show foi gigante, ainda mais vendo de perto do palco. Eu já sabia as músicas; Paula conhecia só de ouvido e aprovou com louvor.
O show parecia greatest hits de alguma banda conhecida. Mesmo quem não era fã curtiu, pelo simples fato de ser um puta show foda, sem enrolação, sem deixar a animação cair. Tinha fã com cartaz, tinha um monte de gente nova que foi lá só pra isso, tinha gente disposta a ouvir um som novo sem preconceitos. Entregaram tudo e subiram a régua. Se vai vingar, não sei. A prova do ‘sophomore effort’, para usar um termo bem afetado de crítico quando fala de segundo disco de bandas, ainda vai acontecer. Mas, por uma hora e pouco, foi o show certo, na hora certa.
Uma semana depois, acontecia o Popload Fest no mesmo lugar. Uma mistura de artistas do TikTok, cantoras Disney e gente alternativa em geral. No meio, algumas boas pérolas.
A coisa toda começou mesmo com Kim Gordon. A música de Kim é bem século XXI, ao contrário do seu ex-marido, ainda perdido nas mumunhas dos noventa. Uma banda de garotos toca com a musa Kim Gordon, que poderia ser avó deles e que, diva que é, usa seu moleton “Gulf of Mexico” em tipografia bold, de um laranja luminoso. Militância sem precisar fazer discurso.
Beats de hip hop encontram a No Wave em uma performance que hipnotizou uma molecada que estava guardando lugar para ver Laufrey, a cantora Disney que meteram no lineup. Missão cumprida, se conseguiu converter algumas cabeças jovens ali.
O show da noite foi de Anne Clark, a.k.a. St Vincent. Anne faz a música que quer e, por acaso, é o que o público espera: tem hits alternativos, demostra um cuidado com o pop sem se render a fórmulas fáceis, faz rock que não cheira a naftalina e toca guitarra como poucos e poucas. É o mais próximo que temos hoje de David Bowie ou Talking Heads, mas soa incrivelmente contemporânea.
Pouco mais de uma hora e o show é carregado de sex-appeal. Arrisco dizer que desde Debbie Harry, no Blondie, não havia uma presença de palco como a que vi no show do Ibirapuera. St. Vincent vai para a plateia, canta de todos os lados do palco, sobe, desce, mostra que tá com o agachamento em dia, dá xerecada no Theremin. Subverte clichês sexuais do rock quando faz um duelo de guitarras altamente sugestivo, praticamente rolando no chão com o guitarrista, ou deixa o público sem fôlego com uma coreografia com a baixista Charlotte Kemp Muhl (que tem uma banda bem boa, The Ghost of a Saber Tooth Tiger, com o marido Sean Lennon).
Você sai do show querendo pegar todo mundo que estava no palco. E todos elegantemente vestidos de preto: Loewe, Armani, Saint Laurent, um extremo cuidado com o visual. É Bowie demais, por gente que sabe como fazer um show pop sem sujar a testa com sorvete e sem parecer fake.
Como se ainda precisasse provar meu ponto, o Wet Leg lançou seu segundo álbum em julho, Moisturizer. As duas esquisitonas da Ilha de Wight, Rhian Teasdale e Heather Chambers, que tinham cara de protestantes virjonas e ascéticas no primeiro disco, aparecem bem diferentes e com uma banda completa, com mais três integrantes, em pé de igualdade com a dupla original.
De novo, a ladainha aparece: aqueles gaiatos que citei lá em cima falam que o disco parece feito por ‘comitê’ (a velha e boa prática de botar músico de estúdio para tocar e compositor a soldo para fazer discos para o fenômeno pop da vez - ah, e óbvio que são homens, claro). Outros insinuam que se Rhian não estivesse toda sarada e usando shortinho curto não faria tanto sucesso assim. Um ex-namorado de Rhian, dos tempos de Bristol, aparece falando que é o personagem de muitas das letras e dando a entender que deu uma mãozinha nas músicas (e parece mesmo ser dor de cotovelo do boy, enquanto Rhian não liga a mínima e vive com a namorada atual em Londres). A cada show, a banda cresce mais e tem maior domínio de palco, botando por terra qualquer suspeita de armação de gravadora.
Pós-Punk-New-Wave que também tem um pé nos anos 1990 ( alô, Elastica?), o disco não desperdiça um segundo e é um dos melhores do ano, antes até do lançamento, com músicas que já rodavam como singles. Em cada canção, a vocalista Rhian faz jus à pose da capa e parece pronta a saltar em cima de algum hétero top desavisado - que, aliás, parece ser o alvo de muitas das letras do disco.
Para aumentar a zoeira, o Wet Leg lançou o desafio: iriam “raspar axilas num reel" se chegassem ao número 1 da parada inglesa, concorrendo com uma coletânea feita para a volta do Oasis e lançada na mesma semana. Todos os hétero top aprovaram ( daqueles que comentam em post de rede social por trás de seus perfis fechados), já que parecem ter horror a pêlos.
Deu primeiro lugar para o disco de Rhian, Heather e os três barbudos que completam a banda - e foram eles que tiveram suas axilas raspadas pelas duas, cumprindo a promessa feita. E toma mais uma na fuça dos hetero top machistas.
2. Do cinema
Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles.
Sim, um título que parece vindo diretamente da lista telefônica de Bruxelas nos anos 1970 (você aí, Gen Z, não deve nem saber que existiam esses calhamaços que juntava os números de todas as pessoas na cidade que tinham uma linha telefônica).
Vindo do nada, o filme de 1975 da cineasta belga Chantal Ackerman foi nº 1 na lista da revista Sight and Sound, do British Film Institute. Surpresa total: a lista vinha em uma corrida de longa distância em que Um corpo que cai (1958), de Hitchcock, aproximava-se cada vez mais de Cidadão Kane (1941), de Orson Welles, até pegar o primeiro lugar na lista de 2012. Em 2022, o filme de Chantal correu por fora e, em sua segunda participação na lista, já chegou ao topo.
Num meio machista como o cinema, esse primeiro lugar é simbólico, mas também surpreendente. Eu, rato de cinemateca e mostras que sou, jamais havia visto - e olha que vi outros filmes de Ackerman desde os anos 1990. A duração deve ter influenciado em sua obscuridade: o filme tem quase três horas e meia.
É um estudo radical da própria teoria cinematográfica - e já explico. Stanley Kubrick falava que o que o cinema tem de original é a edição; afinal, roteiro, direção, atuação, música, cenografia e muito do que compõe um filme já existem em outras formas artísticas. A construção do tempo cinematográfico, aquele pensamento todo que Sergei Eisenstein teorizou de maneira brilhante, é o alicerce mais proprietário do cinema.
Chantal radicaliza e dilata o tempo. Seu filme mostra minuciosamente a rotina durante três dias na vida de Jeanne Dielman, uma viúva de cerca de 40 anos, dona de casa, que mora no centro de Bruxelas com o filho adolescente. O paralelo da rotina doméstica em pequenos afazeres que se repetem - todo dia ela faz tudo sempre igual - e seu side job sigiloso de prostituição durante as tardes, que é tão metódico e repetitivo quanto, criam a tensão do filme. E dá-lhe cena de Jeanne fazendo faxina, compras, cozinhando costeletas à milanesa, um bolo de carne ou batatas, em tempo real e nos mínimos detalhes.
A desolada paisagem da Bruxelas dos anos 1970 contribui para o isolamento da personagem, de quem só sabemos a história por meio de fragmentos em suas conversas com o filho ou com uma lojista. Não há nada que facilite para o espectador, como a literalidade de hoje no cinema ou na TV, em que só falta congelar a imagem e um narrador explicar o que está acontecendo, para ter certeza de que todo mundo entendeu.
Cada ação aparentemente tediosa e regrada de Jeanne constrói uma tensão e bagunça a expectativa do público. É o exato oposto do cinema mainstream, quase um filme avant-garde. Mas em nenhum momento é chato - e posso falar de cátedra, eu que já vi filme com parto de camelo e eclipse filmado em bacia d’água, em tempo real.
Não sou de dar spoiler e não vou falar mais do filme. E nada daquela história de “passei três horas e meia vendo esse filme para que você não precise ver”- na verdade, é o contrário; quero que você passe três horas e meia vendo esse filme e depois faça seu próprio juízo.
3. Dos livros
Páradais, da escritora mexicana Fernanda Melchor, poderia se passar no Brasil. Esse pressuposto clichê vem logo à cabeça de qualquer um que leia esse curto romance, de pouco mais de 100 páginas, mas extremamente denso. Páradais é a transliteração de Paradise, nome do condomínio fechado onde se passa a ação.
O livro segue dois párias desse microcosmo: o jardineiro Polo, que vive na cidade-dormitório ao lado de Páradais, e o incel Franco, que mora com os avós no condomínio. Os dois rejeitados se juntam numa relação de um certo mutualismo parasítico. Franco arranja bebidas que rouba da adega de casa e compra cigarros, enquanto Polo é o malaco que dá ao gordinho Franco, que pouco conhece do mundo real, a sensação de fazer parte de alguma transgressão. Óbvio que vai dar muita merda, mas paro por aqui.
Fernanda Melchor nasceu em Veracruz, litoral do Golfo do México e palco de embates entre Los Zetas e o Cartel do Golfo pelo domínio de rotas do tráfico de drogas. Mora em Puebla, meio que uma Campinas do México, por onde passamos em uma viagem e onde vi um shopping lotado de carros de luxo, guardados por seguranças portando fuzis AR-15. México é bem o Brasilzão véio de guerra, a mesma desigualdade social misturada com criminalidade constantemente em alta e uma elite encastelada em seus privilégios, que vive como se estivesse num condomínio de Miami.
Em Páradais aparece a receita completa dessa mistura do Brasil com o México: misoginia, machismo, pobreza, desigualdade, alienação, glorificação de uma violência sem sentido, facções criminosas, violência policial e humilhações diárias de quem vive de subempregos, numa sociedade altamente hierárquica.
Fernanda escreve sem maneirismos, com força e sem cair naquele espírito de sáfari antropológico que conhecemos muito bem por aqui (e nem vou apontar o dedo para ninguém, que não sou disso 🥰).
4. Da vida
Enganei todo mundo. Falei que era escapismo, mas não me contive.
Não consigo separar as coisas. Escapismo sim, que eu adoro, mas nunca uma total alienação que me deixe lobotomizado.
Ouvi muito, li muito, assisti poucos e bons (além do filme de Chantal Ackerman, vi também, entre outras coisas, um doc sobre Pagode 90 e outro sobre o Butthole Surfers, veja só).
Tudo isso ajuda a balizar a vida real, que continua a acontecer lá fora. Não entendo quem fica o tempo todo ligado em notícias, que parece dormir em cama de campanha eternamente, mas também não entendo igualmente quem não dá a mínima para o que está acontecendo embaixo de seu nariz. A vida só presta se tiver de tudo, e talvez ao mesmo tempo, agora. Não dá para escolher só as partes que interessam e se isolar do resto - se bem que muita gente talvez preferisse isso.
A Era dos Extremos na versão século XXI ainda vai longe. Mas num mantra que repito sempre aqui, teremos a arte para continuar vivendo. Já é alguma coisa.


