Mais um giro
Primeira parte da retrospectiva da música, com os melhores discos de 2025.
Se ainda não assina, clique no botão abaixo para receber um texto novo toda semana. Se já é assinante, você pode mudar para a modalidade paga.
Intro.
Admito, queimei a largada. Há pouco tempo, fiz uma edição em que falava de shows e discos que gostei, muito antes da tradicional retrospectiva de fim de ano. É que não consegui resistir: vi muita coisa boa, ouvi outros bons discos, conheci muito mais do que esperava.
Algumas descobertas musicais vieram quando terminei um relacionamento tóxico - sim, finalmente larguei o Spotify. Já era algo que eu queria fazer, dada a enshitifcation do app, sua péssima qualidade de som, seu tratamento indigente aos artistas e, finalmente, o investimento que seu dono, Daniel Ek, faz em empresas de tecnologia militar fornecedoras de Israel.
Mirei num alvo, acertei no outro: o algoritmo do Spotify realmente é bem treinado e responde rápido, mas o jabá sem limites e a manipulação me enchiam a paciência. Indicavam coisas que sequer me interessavam remotamente e enfiavam no meio de uma playlist uns artistas que eu acharia melhor que estivessem presos em um submarino defeituoso no fundo do mar. E sequer me divertia mais com a retrospectiva do app, que escondia deliberadamente alguns artistas e bombava outros.
Mudei para a Apple Music e, para a minha surpresa, descobri mais coisas novas em 6 meses do que em anos de Spotify. Não é um streaming para todo mundo e, à primeira vista, é bem mais indicado para quem já sabe o que quer ouvir (e em geral, álbuns e não músicas avulsas em shuffle, por exemplo). Ao mesmo tempo, tem muita coisa que não estava disponível no Spotify (olá de novo, Big Black e Jim O’Rourke). Mas me surpreendi mesmo foi com algumas playlists bem cuidadas, que me apresentaram muita coisa que eu não conhecia. Talvez, por ser um app meio low-profile, os curadores da Apple têm muito mais liberdade do que no Spotify, quintal de grandes gravadoras.
Talvez isso se reflita na minha lista de melhores do ano. Tem muito artista diferente, que não apareceu nas edições anteriores. Outros estilos, outras épocas, algumas descobertas e, também, reencontros com antigos preferidos. Confira aí embaixo, na contagem regressiva de sempre.
dez discos (ou mais)
RELICÁRIO - AO VIVO NO SESC e MESOZÓICO, Karnak
Empate na décima posição dos dois discos que o Karnak lançou no ano e, apesar de serem de épocas diferentes, têm tudo a ver. Relicário é gravado ao vivo no final do século passado e pega a fase mais conhecida da banda, quando André Abujamra achava - só ele - que o Karnak era mais pop que o Skank. O outro, desse ano, é “inédito”: a banda vem com um caô de que as músicas de Mesozóico são demos históricas do Karnak, descobertas recentemente nos escombros de um prédio, na Alemanha. É só uma deixa para enfiar letras retrô, pirações pós-punk e new wave e fazer músicas pop sem qualquer compromisso com a contemporaneidade, o que é ótimo. E o show continua imbatível.
DESE0, CARNE Y VOLUNTAD, Candelabro
Brasil tradicionalmente vira as costas para a música dos países vizinhos, mas não deveria: tem muita coisa boa na América do Sul e Candelabro, uma novíssima banda chilena, é um bom exemplo disso. Consegue pegar influências de rock progressivo, música tradicional andina, os conterrâneos Los Jaivas, Spinetta e outros argentinos, Mercedes Sosa, rock pastoral - e tudo funciona bem. Subversivo e humanista, com músicas de temática católica num país fortemente influenciado por uma Igreja conservadora, Candelabro consegue juntar música boa e militância inteligente. E é uma vitória uma banda assim vir do Chile: entre 1973 e 1990, rock era proibido pela ditadura Pinochet. Agora, com a volta desse grupo político fascista ao poder, é preciso cada vez mais ter bandas como essa.
THE BAD FIRE, Mogwai
Mogwai, por algum motivo desconhecido, virou queridinho da Gen Z (quer dizer, sei bem o porquê: Tik Tok). Acho ótimo, nada melhor do que continuar relevante comercialmente, para uma das bandas mais barulhentas que conheço - e dizem que o show em São Paulo (que não vi por motivos de…Bahia) não fez justiça a toda a potência sonora dos caras. Esse disco aqui mostra que continuam em plena forma e ainda têm muita distorção a mandar no ouvido do público.
THE BPM, Sudan Archives
Brittney Parks começou na música clássica, no violino. Mas a formação clássica não a impediu de ir atrás de outros gêneros. Sob o nome Sudan Archives investe na música eletrônica + R&B + música negra em geral e The BPM já é o segundo disco em que ela acerta na mosca. Ter sido gravado entre Chicago e Detroit não é um acaso: as duas cidades são o berço, respectivamente, do Techno e da House, dois subgêneros da dance music que Brittney explora bem no disco. Numa época em que a música eletrônica tem apostado no que é seguro (como as dinâmicas previsíveis de Alok, por exemplo), Sudan Archives mostra que o gênero tem espaço para inovação e reverência às fontes ao mesmo tempo.
LOWER, Benjamin Booker
Booker foi uma das boas descobertas do ano - ainda não conhecia esse cantor/compositor de New Orleans, que não se encaixa em rótulos fáceis. Talvez um Otis Redding cheio de feedback de guitarra e beats de hip-hop, com uma voz rouca que soa como se gravada por um microfone das antigas. Na verdade, tudo no disco parece feito em estúdio tradiça, tipo o clássico Muscle Shoals, do Alabama. E tudo com amplificadores valvulados e guitarras vintage, mas com uma música que aponta para o futuro.
(Dica: se tiver que escolher só um disco dessa lista para ouvir, vai nesse, que é talvez o mais surpreendente e que você não deve ver gente falando dele em outros lugares).
GETTING KILLED, Geese
E por falar em futuro, Geese é a banda que a imprensa musical gringa (ou o que restou dela) “descobriu” como salvação do rock. É tanta unanimidade que dá até para desconfiar. A extrema boa vontade talvez tenha tudo a ver com o Zeitgeist: depois que os EUA emendaram uma marcha à ré acelerada, uma banda de rock vendável”, com quatro jovens brancos, liderada por um vocalista gato, é tudo o que o mídia mais tradicional quer. Mas Geese tem todos os elementos certos: lembra muitas bandas que vieram antes, num saque ao vasto catálogo passado do rock, mas ao mesmo tempo não é fácil cravar um único nome com quem a banda de fato se parece (ou de quem copia). Ou seja, é exatamente como uma grande banda de rock sempre deve soar. E talvez seja a primeira da Gen Z a conseguir isso.
THE CLEARING, Wolf Alice
Um disco que eu não dei muita bola logo que saiu. Nunca ouvi muito Wolf Alice e não tinha referência. Mas dei uma chance e bastam algumas audições para você viciar mais rápido do que em crack. Boas músicas pop, que devem funcionar super bem no palco. É difícil soar como uma rádio FM dos anos setenta sem parecer irônico ou forçado - mas Wolf Alice consegue.
ESSEX HONEY, Blood Orange
Não perca a conta, que agora chegamos ao pódio. No terceiro lugar, Dev Hynes: o multiinstrumentista por trás do Blood Orange tem jeito de ser o cara mais low-profile da música e, também, um dos mais bem informados. Gênio do estúdio, faz trilhas sonoras boas, remixes para grandes nomes (até Paul McCartney) e tem uma obra bem pessoal e com todas as referências mais legais da música. Cita Replacements e Yo La Tengo, revisita new wave e pós-punk, beats eletrônicos, folk etc, etc e um longo etc - Hynes está em todas. Um dos discos mais completos e complexos do ano.
THE PURPLE BIRD, Bonnie “Prince" Billy
O vice-campeão Will Oldham, a.k.a. Bonnie “Prince” Billy, é macaco velho da música e já teve inúmeras bandas, projetos e discos solo por aí. Em The Purple Bird, o cara junta veteranos de Nashville num disco que tem os dois pés bem fincados no country mais clássico, mas que não soa datado em momento algum. Dá para sentir a felicidade de Oldham em tocar ao lado de caras que respeita e que o inspiraram muito. Cada música soa real, com entrega e emoção. Um álbum sincero, que mostra um amor verdadeiro por um gênero musical muito subestimado e incompreendido (e que popstars superficiais sempre saqueiam quando querem fazer média com o público conservador dos EUA).
MOISTURIZER, Wet Leg
O primeiro lugar não tem segredo para quem já leu os textos desse ano: o disco do Wet Leg parece até um greatest hits de alguma banda do pós-punk/new wave e que ainda mandaria bem no auge do Britpop. Disco perfeito, para tocar em festa, no repeat. É tudo o que o rock de arena poderia ser, se não estivesse há anos sequestrado por uns leite-com-pêra como Coldplay ou Foo Fighters.
MORE, Pulp
Ainda tem mais: como não consigo me decidir, pelo segundo ano consecutivo tem empate no topo.
Pulp sempre foi a banda britânica mais digna dos anos noventa. Jarvis Cocker pensa bem, escreve bem, se posiciona sempre do lado certo da história. Carismático, bom cantor e bom letrista, é como se fosse um Morrissey do bem. Nesse primeiro disco do Pulp em 24 anos, está tudo lá: as boas histórias, as grandes músicas de levantar o público sem precisar recorrer ao populismo musical, o jeito cool de tratar de temas cotidianos de forma irônica, mas sem cair na caricatura. É o quinto álbum seguido do Pulp que é praticamente perfeito. Talvez seja o último. Se for, vai ser uma pena: para mim, é a banda britânica mais importante dos últimos 30 anos e verdadeiros cronistas de um país que foi da festa da Cool Brittania de 1995 ao amargo Brexit de 2016 ou à atual escrotidão isolacionista e repressora que o punk sempre combateu. Sempre do lado certo, Jarvis é cada vez mais necessário.
Aqui jazz (mas não só)
Como já falei antes, não sou a favor da segregação, mas acho que é importante abrir um espaço especial para a música menos imediata e mais complexa e desafiadora. Não sou nem um pouco versado em música clássica - por exemplo, não sei citar qualquer obra fundamental de Enrico Pallazzo - e há gêneros e mais gêneros musicais dos quais tenho conhecimentos bem superficiais. Logo, o meu foco aqui é somente naquilo que ouço mais, pesquiso e entendo. Ou seja, música pop e jazz (e que era o pop antes do pop que conhecemos). Aqui, juntei música instrumental também. Afinal, até mesmo o jazz, já há muito tempo, deixou de ter fronteiras extremamente definidas. Vamos então aos melhores discos do ano.
TOUCH, Tortoise
Tortoise não é jazz, apesar de jornalistas que gostam de generalizações pregarem esse rótulo neles. A banda é instrumental e tangencia muitos estilos do jazz, mas a mistura é muito maior e mais ampla. É outro preferido da casa que não lançava disco há algum tempo e nunca decepciona. Tem tanta referência que é praticamente uma enciclopédia da música instrumental dos séculos 20 e 21.
FUKUSHIMA, Sinsuke Fujieda Group
Japão é um epicentro do jazz contemporâneo e é interessante que, ao mesmo tempo, não existe uma reverência excessiva pelos ícones do gênero e nem medo de retomar estilos passados. Aqui, Sinsuke Fujieda faz um som que poderia muito bem estar num grande disco de Coltrane da fase pré-Love Supreme. Não é retrô ou saudosista: parece, na verdade, retomar o jazz desse período dos anos 1960 como se fosse agora.
HONEY FROM A WINTER STONE, Ambrose Akinmusire
Akinmusire tem um trabalho consistente de trilhas sonoras e sua música é elegante demais, praticamente um jazz com traços da ambient music de Brian Eno. Atemporal e promissor, um dos bons novos nomes (e já é quase veterano).
AFTER THE LAST SKY, Anouar Brahem
O tunisiano Brahem toca oud, um instrumento tradicional do Oriente Médio. Nesse disco, com mistura de música árabe tradicional, música clássica ocidental e jazz, Brahem faz uma homenagem a Gaza (o título vem de um poema do escritor palestino Mamoud Darwish). Delicado e emocionante.
PIRACEMA, Clarice Assad
Uma das musicistas brasileiras mais geniais da atualidade e que pouca gente conhece. Radicada há anos no exterior, Clarice é a primeira mulher a fazer uma trilha para um balé do Grupo Corpo. No espetáculo Piracema, de 2025, a trilha de Clarice se mostra uma das melhores da longa história da companhia; talvez no mesmo nível de Parabelo, de Wisnik e Tom Zé, de 1997, e que foi apresentada também na temporada desse ano. Boa descoberta de 2025 para mim, que não conhecia Clarice. (Essa trilha ainda não tem em streaming, mas há outras coisas dela e vale muito descobrir toda a obra de Clarice Assad).
Melhor álbum (de outros anos)
Ouvi muita coisa de agora, mas sempre descubro álbuns que nunca ouvi antes. Streaming tem dessas. Antes, sebos e lojas de discos usados eram a única fonte para uma educação musical das décadas passadas, já que vários LPs nunca foram reeditados em CD. Já faz uns anos que descubro algo que nunca tinha ouvido, apesar de já existir por aí há décadas.
E esse ano, a melhor descoberta foi…Ivan Lins.
Calma, calma, já explico. Durante anos, tive a sensação de que existiam dois Ivans Lins: um que a gente conhecia das trilhas de novela e programas de auditório da Globo e outro, homônimo, que os gringos conheciam e respeitavam.
Ao dar de cara com MODO LIVRE, disco de Ivan Lins de 1974, entendi tudo e deixei de lado o preconceito. Grande disco, com uma das melhores bandas já reunidas por um artista brasileiro. E, ainda, com produção de Raymundo Bittencourt, grande responsável por discos importantes da história da música brasileira e, especialmente, com arranjos de Arthur Verocai. Com essa mistura toda, não tem como existir uma única música mais-ou-menos no disco, mesmo que não haja nenhum hit. Discão gigante e meio esquecido, numa época em que a música brasileira estava à beira do abismo em que afundaria nos anos seguintes (em parte, por culpa da repressão e, também, com a ascensão da televisão como vitrine principal da música no Brasil - algum dia falo disso).
Epílogo.
Olhando para a minha lista desse ano, há bastante diferença em comparação com outros anos. Em linhas gerais, o que ouço segue um padrão; mas, ao mesmo tempo, cada época tem sua particularidade. E não me restrinjo apenas aos discos que listei aqui (afinal, Juana Molina, Stereolab, Sharon Van Etten, Limiñanas, Half Japanese, Destroyer, novas bandas de shoegaze como os brasileiros do Ariel Void e outros bons sons não entraram na lista). De qualquer forma, ouvi muito mais esse ano e aprendi muito mais, também.
Aposto que a música que vou ouvir em 2026 também será diferente, e sei que vou desenterrar algumas preciosidades do passado que eu nem sabia que existiam.
Quem sabe seja esse o sentido do Locked Groove que dá o nome ao meu substack: constante movimento e redescoberta, e não uma repetição sem fim.



