Escolhendo um lado
As melhores histórias de 2025 têm algo em comum.
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Intro.
Nem preciso de muita introdução para a retrospectiva de final de ano: quem já visita esse cafofo aqui com frequência sabe que ano sim, outro também, falo do que li, vi e ouvi no último ano.
Tudo bem que 2025 demorou a pegar no tranco e só voltamos a rodar há poucos meses. Mas, como já falei aqui, foi um período em que tive contato com muita coisa boa: shows, livros, filmes, viagens.
Já faz um tempo que prefiro falar sobre histórias - pouco importa se é TV, Cinema, Literatura, HQ ou até mesmo alguma outra boa história real.
Nesse ano, algumas descobertas boas, alguns antigos prediletos da casa e muita coisa que me fez pensar. Quando revi a lista em que pensei mentalmente, havia muito em comum entre todas as histórias que mais me marcaram no ano. Não foi uma escolha consciente - é mais uma seleção ‘natural’, digamos assim. Volto nisso em breve. Quem ficar até o final vai entender. Enquanto isso, sem enrolação, lá vai a boa e velha lista que todo mundo gosta.
1.
El Eternauta é um clássico das HQs mundiais e, também, o Cidadão Kane das HQs argentinas. Seu autor, Héctor German Oesterheld, é um dos gênios da Nona Arte, um nome chique para Histórias em Quadrinhos e que eu adoro. Serializada entre 1957 e 1959, é uma ficção científica como poucas - ao invés da batida fórmula de colocar o hemisfério norte como local da ação e anglo-saxões como salvadores do mundo, a história se passa nas ruas e parques de Buenos Aires; ao mesmo tempo, é uma metáfora militante de imperialismo e insurreição, em época de Guerra Fria. Já contei a história de Oesterheld aqui, inclusive.
El Eternauta virou série de TV em 2025 (Netflix) e é dirigida por Bruno Stagnaro (pouca gente vai saber, mas ele foi o primeiro cara a recolocar o cinema argentino no mapa do cinema, com o indie movie Pizza, Birra y Faso, de 1997).
A bola estava quicando na área: o herói com cara e jeitão de gente comum, Juan Salvo, é interpretado por Ricardo Darín - escolha óbvia e acertadíssima. Mas não só ele: se tem uma coisa realmente brilhante nessa série é o casting.
A história também é atualizada de forma inteligente. Ainda não dá para saber muito bem o resultado, pois na primeira temporada só se passou no máximo um quarto da história original, mas a Guerra das Malvinas entra no meio, assim como as muitas tretas recentes da história argentina. Apesar da demora para engrenar, a série entrega tudo o que promete e, se mantiver o bom nível, vai ser grande. Essencial, ainda mais em tempos do facho Milei.
Não sou muito de séries de TV, então falar de duas séries no mesmo ano é completamente fora da curva. Mas a série da Apple TV+, O Estúdio, de Seth Rogen e seus parças de sempre, foi uma surpresa para mim. Na grande tradição de filmes sobre o cinema, como o Jogador (1992), de Robert Altman, atira em todos os alvos certos, tem um humor corrosivo e autodepreciativo e conta com participações especiais de grandes nomes do Cinema - Martin Scorsese, Ron Howard, Charlize Theron e outros.
Na série, Seth Rogen faz Matt Remick, um executivo de cinema em alta pelo sucesso de uma franquia produzida por ele, baseada em algum videogame meio imbecil; mas Remick é pouco respeitado e sem traquejo social algum. Após um passaralho, acaba promovido à presidência de um estúdio tradicional pesadão e decadente, que tenta se adaptar aos novos tempos de redes sociais, franquias de super-heróis e gen-Z. Cinéfilo e idealista, Remick também é manipulador, paranóico, covarde e arrogante ao mesmo tempo. Navega o fracasso iminente como um capitão de navio em direção a um gigantesco iceberg.
Bem filmado, com grande edição e sem deixar cair o ritmo, faz uso de longos planos-sequência bem encenados, claramente inspirados em Scorsese ou na cena inicial do filme de Altman de que falei lá em cima. Aliás, as referências à história do cinema, entremeadas com o estado atual da indústria cinematográfica, fazem a série ser uma das produções mais subversivas a tratar do tema. Ironicamente, Seth Rogen não para de receber propostas para participações especiais de cineastas e atores que querem aparecer como si próprios, depois da surpresa que foi, por exemplo, a participação de Scorsese (uma grata revelação como ator).
2.
Cinema em 2025 está exatamente nessa encruzilhada que O Estúdio mostra. Na terra arrasada de Hollywood, o buraco parece ficar cada vez mais fundo, com a concentração de estúdios e streamings num sistema de oligopólio cada vez mais fechado. Na monocultura das franquias, super-heróis se repetem e o que tem de mais interessante no Cinema parece vir de fora dos EUA, como tem mostrado a abertura cada vez maior das premiações para filmes de outros países.
Acabei não vendo alguns dos filmes feitos nos EUA nesse ano - mas como não tenho a pretensão de abordar 100% do que aconteceu de relevante, deixo para depois para falar sobre Sinners ou Uma batalha após a outra, dois filmes que me chamaram a atenção.
Os destaques mesmo vieram daquilo que no Oscar chamavam até há pouco tempo de “filme estrangeiro” (agora passou a ser filme internacional). O vencedor da Palma de Ouro desse ano em Cannes, Foi apenas um acidente, de Jafar Panahi, é um filme iraniano feito praticamente na clandestinidade e que vai concorrer ao Oscar por outro país. Conheci o cinema de Panahi na Mostra, anos atrás, com O Balão Branco. Nesse, Panahi traz um roteiro muito simples e que diz muito sobre o Irã atual (e não só). A pergunta central: como lidar com a repressão e o autoritarismo sem se deixar levar pelos mesmos métodos do opressor? Qual o limite moral para quem está sob um regime autoritário?
O grande clássico Z, de Costa-Gavras (de 1969 e ganhador de dois Oscars no ano seguinte), traz a mesma discussão, em outro contexto. O filme se passa em um país mediterrâneo que não é identificado, mas que é claramente a Grécia dos anos 1960, país natal do diretor. O thriller político tem um enfoque diferente, ao tratar de um momento pré-golpe, uma sociedade a caminho de um regime autoritário que corrói a democracia aos poucos.
Na história, Yves Montand é um político de oposição que defende a democracia e o não-alinhamento com as potências nucleares. É alvo de grupos paramilitares clandestinos ligados a figuras-chave das forças de segurança nacionais, uma milícia de agentes públicos agindo clandestinamente, bem como conhecemos por aqui. Costa-Gavras mostra como o autoritarismo avança contra as forças democráticas, sob o disfarce de uma emergência anti-subversiva que, ao final das contas, busca apenas uma justificativa para um golpe militar.
É muito do que vemos também em O Agente Secreto. Kleber Mendonça Filho é fortemente influenciado por Costa-Gavras e, especialmente, por Z. Muito em O Agente Secreto vem dessa influência - o mesmo clima de que há algo acontecendo além da aparente normalidade, a mesma sensação de que agentes públicos agem nas sombras para cometer crimes sob um manto de lei e ordem.
E pode acreditar na propaganda: O Agente Secreto é forte candidato a melhor do ano. Páreo duro, porque teve muita coisa boa e o iraniano Foi apenas um acidente é incrível. Mas o filme tem tantos significados e simbologias que é para ver mais de uma vez, para conseguir entender tudo. Conecta a história que se passa em 1977 em Recife com uma reflexão sobre autoritarismo, família, identidade nacional, cultura. Um carnaval de máscaras que esconde um subterrâneo de repressão e violência.
No final, a memória afetiva presente em cada cena de O Agente Secreto é o que o transforma no filme que mais gostei em 2025. Não subestima o espectador, não cai na tentação de querer explicar tudo, não tem medo de usar alegorias. São várias histórias que podem ser contadas a partir de um único filme e, talvez por isso, seja tão importante nesse momento.
(ps.: Kleber já merece toda a aclamação pelo filme só pelas referências ao seu filme anterior (Retratos Fantasmas), por seu olhar para o carnaval, para o cinema e para uma Recife que não existe mais; e, ainda, também por conseguir encaixar a sensacional lenda urbana recifense da perna cabeluda num filme de destaque mundial).
Talvez não seja o melhor, mas é com certeza o filme mais impactante de 2025: Sirāt, produção franco-espanhola, de Óliver Laxe.
(No dia do Juízo Final, Sirāt é a ponte que todos os seres humanos devem atravessar para chegar - ou não - ao Paraíso. Em árabe, significa caminho ou estrada. Os justos a cruzam por suas boas ações, os pecadores caem.)
Com um trabalho de som, edição e fotografia incríveis, o filme tem um clima bem próximo do clássico O Salário do Medo (1953), de Henri-Georges Clouzot ou de Sorcerer, sua versão dos anos 1970 feita por William Friedkin. Um pai (o ótimo Sergi Lopez), que viaja com o filho pequeno, chega a uma rave no deserto marroquino em busca da filha que havia partido para o Marrocos e não deu mais qualquer sinal. Pouca coisa é explicada. Pai e filho se juntam a um grupo de ravers que vão a outra festa em um deserto mais distante ainda, após a primeira ser interrompida por soldados - não se sabe exatamente o que acontece, mas há ecos de Terceira Guerra Mundial.
Segue-se uma jornada apocalíptica e perigosa, com um grupo improvável de misfits junto com a dupla de pai e filho, no deserto marroquino. Um grupo à margem da sociedade, sem sabermos exatamente qual é a história de cada um, além de pequenos fragmentos. Uma travessia pela imensidão do deserto com uma mistura de religiosidade, fé, música, drogas e delírio. É praticamente um sonho alucinógeno, altamente sensorial, e que não amarra muito as pontas no final. E nem precisa. Absolute cinema.
3.
Falei já há alguns meses de Páradais, grande livro de Fernanda Melchor, autora com um olhar bem atento ao que o México é hoje.
Mas outros dois livros que li nesse ano entram também na lista dos melhores - nenhum é de 2025 e ambos são livros que eu queria ler há muito tempo, mas deixava para depois.
Limonov é um livro de 2011 do francês Emmanuel Carrère, autor do meu preferido em 2023, Yoga. Aqui, Carrère faz uma biografia de Eduard Savenko, a.k.a. Limonov, cujo nome artístico (ou melhor, codinome) vem da F1, tradicional granada de mão soviética da Segunda Guerra e apelidada de Limonka, por ter um formato que lembra um limão.
Poeta underground soviético exilado da URSS em 1974, Limonov zarpa para Nova York, onde mergulha na contracultura e toca o terror. Com seus livros baseados em sua própria vida, cheios de som e fúria, e uma prosa que é uma voadora no peito da ‘cultura oficial’, Limonov se transforma, em suas próprias palavras, no “Johnny Rotten da literatura russa”.
Carrère tem extremo respeito pelo biografado e evita fórmulas fáceis. Não subestima o leitor, não cai na caricatura ou no puritanismo ao se aprofundar em um personagem tão complexo. Limonov é tão contraditório, age de forma tão extrema e agarra tantas causas erradas que seria muito fácil cair no anedótico ou no sensacionalismo para contar essa história.
Ao final, é um personagem que abandona relacionamentos sem olhar para trás, que se mistura com genocidas (Limonov passou uma temporada nos Balcãs durante a Guerra Civil Iugoslava e ficou amigão de Radovan Karadžić e Ratko Mladić, bandidos condenados pelo Tribunal Penal Internacional), admira Stalin, parece ter o coração cheio de rancor e ódio, e, finalmente, volta à Rússia e funda um partido bizarro de oposição a Putin, o Partido Nacional-Bolchevique, uma mistura bem alucinada de fascismo e stalinismo. Mas Limonov mostra-se multidimensional na boa história contada por Carrère. Não abre mão do que acredita, luta contra a estagnação da cultura dominante e subserviente ao poder, combate a repressão do autoritarismo. É consistente em suas escolhas e, além disso, está disposto a pagar o preço por elas. A melhor definição para Limonov talvez seja ‘sincero'.
Um livro com 70 anos, mas que diz muito sobre o mundo de hoje. Já tinha visto algumas edições de The Quiet American, de Graham Greene, em muitas livrarias e até mesmo na estante do meu avô, muitos anos atrás. Era o livro preferido de Anthony Bourdain e elogiado por muitos outros escritores de responsa. Eu já havia lido outros de Greene, mas por algum motivo jamais havia chegado a pegar esse aqui.
A história se passa no começo da década de 1950, na Indochina Francesa (atual Vietnã), quando ainda era domínio francês, antes de os franceses se empirulitarem de lá e passarem o bastão do combate ao comunismo a contragosto para os EUA, que assumiram esse lamaçal imperialista com resultados que conhecemos bem.
O ‘americano quieto’ (ou tranquilo, na tradução brasileira) do título é Alden Pyle, um jovem agente da CIA que chega a Saigon e conhece Thomas Fowler, um veterano repórter britânico. O macaco velho Fowler entende na hora qual é a de Pyle e seu bom-mocismo de cowboy de chapéu branco, querendo levar a democracia e a civilização aos rincões do mundo. Como não poderia deixar de ser, Pyle tem a síndrome do white-saviour e logo se encanta pela namorada vietnamita de Fowler, ao mesmo tempo em que arrepia nas operações secretas em Saigon na tentativa de criar uma terceira via, que combata tanto comunistas quanto franceses colonialistas.
Graham Greene fala sobre intervencionismo, desprezo pela vida, escolhas morais e a arrogância imperial de quem assume um papel para si de “Farol do Mundo Livre”, como os EUA fizeram no pós-Guerra. Não por acaso, Greene foi acusado de antiamericanismo e de ser simpático aos comunistas do Vietnã - e isso antes da fase mais sangrenta e genocida da Guerra, causada pela intervenção dos EUA, o que acabou por provar o ponto de Greene.
“Mais cedo ou mais tarde (…) você tem escolher um lado. Se quiser permanecer humano.”
_Graham Greene
Epílogo.
Quando montei essa lista, comecei a perceber um padrão. Temas que se repetem, de alguma forma, por mais que sejam de autores e épocas diferentes. Seja o anti-imperialismo de El Eternauta, a luta contra o subterrâneo da ditadura de O Agente Secreto, a jornada sensorial dos nômades da contracultura em Sirāt, a explosão de inconformismo de Limonov ou até mesmo a resistência cinéfila em O Estúdio - todos escolhem um lado.
Talvez a volta de Donald Trump ao poder seja a maior e mais grave história de 2025. Em pouco menos de um ano, as mudanças engendradas por esse retorno vingativo e perigoso já se fazem notar e dão espaço a um retrocesso brutal em todas as áreas. Ao final, tudo o que vi, li e ouvi esse ano parece inspirar uma resistência e uma contestação a esse estado das coisas.
Enquanto boas histórias ainda estiverem sendo contadas, talvez haja chance para a humanidade.


