Uma derrota após a outra
Infelizmente para nós, Thomas Pynchon sempre esteve certo.
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Intro.
Oscar já é assunto velho. Só deve continuar a bombar no zap de gente amarga que se acostumou a comemorar derrotas e coisas ruins e que vibrou com os Oscars que não vieram para o escrete canarinho.
Para mim, tá valendo o que rolou e não é se contentar com pouco. Filme brasileiro, ao contrário do que dizem os reaças, merece reconhecimento e aplausos. Fazer cinema no Brasil não é fácil e quem tenta está muito mais botando o seu na reta do que querendo enfiar a mão no bolso do contribuinte.
No saldo final, resta um grande e premiado filme, O Agente Secreto, que chega a uma importante vitrine, num mercado muito fechado. Para se ter uma idéia, cerca de 85% do que é exibido e 99% da bilheteria nos EUA são para produções de lá. Jogo duríssimo. E O Agente Secreto fez bonito, teve muito destaque, foi bem assistido e entrou lá no alto nas listas dos melhores do ano, em muitas publicações gringas que ainda insistem em existir nesse tempo de fandom.
Os grandes vencedores da noite foram filmes do cinema mais rico ($$$) do planeta, como em geral acontece. Sinners, de Ryan Coogler, levou quatro Oscars. Uma batalha após a outra, de Paul Thomas Anderson, levou seis. São duas das principais tendências atuais do cinema dos EUA: por um lado, a grande ascensão do audiovisual negro, com cada vez mais produções e equipes criativas e técnicas que têm ganhado destaque; por outro, o cinema que era independente na década de 1990, influenciado pelos filmes autorais dos anos 1970, de Scorsese, Ashby, Hopper e outros, e que agora está no mainstream. Fazem grana nas bilheterias, apesar de o mercado ainda ser dominado por grandes produções de super-heróis.
Mas não foi somente o lado cinematográfico que me chamou a atenção. Uma batalha após a outra não nasceu apenas do cinema independente dos EUA. O filme tem uma influência que não é óbvia e que pouca gente vai sacar - até porque, apesar de ser pop até a medula, é uma influência reconhecível por meia dúzia de leitores, se tanto.
E veja bem, não é elitismo cultural e nem culpar o público. Começa que é uma referência literária, e num mundo em que cada vez menos gente presta atenção em literatura (pra não falar em balé e ópera), fica mesmo difícil sacar. E, ainda, porque é um autor que é alternativo até para bons leitores; o escritor que inspirou o filme de Paul Thomas Anderson não é muito fácil de definir, com alguns tijolaços de centenas de páginas, produção infrequente, estilo bem pouco clássico e, finalmente, nenhuma vontade de se promover. Mas é um dos autores que mais gosto, um dos poucos de quem tenho todos os livros e que, até hoje, eu talvez não conheça pessoalmente alguém que já tenha lido. Não poderia estar falando de outro a não ser…Thomas Pynchon.
Thomas quem? 🤔
1.
Oi, eu sou Ricardo Martini e vocês devem se lembrar de mim de textos em que falo sobre tudo o que eu gosto: rock de garagem obscuro, cinema de autor, histórias em quadrinhos underground, Odessa A’zion e mumunhas da ciência política. Mas hoje estou aqui para falar de um escritor que muitos talvez não conheçam.
Thomas Pynchon é figurinha difícil até para quem é profissional da literatura. Para começar, poucas fotos que mostram Pynchon são oficialmente reconhecidas como autênticas - em geral, granuladas e em preto e branco, vêm do seu registro no serviço militar na Marinha, de um Yearbook da escola ou de algum momento aleatório nos anos 1960. Pouca coisa se sabe da sua vida. Pynchon nasceu em 1937, estudou engenharia (e depois mudou para Literatura Inglesa), serviu na Marinha dos EUA e trabalhou na Boeing antes de lançar seu primeiro livro. Recluso, nunca aparece em eventos e, quando ganhou um prêmio no National Book Awards, mandou outra pessoa receber o prêmio - e criou-se a lenda de que talvez fosse ele mesmo, escondido por outra identidade.
Durante anos, especulou-se que Pynchon fosse um alter ego do escritor J.D. Salinger, outro famoso, recluso (e cuzão) autor de Apanhador no Campo de Centeio. As pistas eram meio teorias da conspiração: Pynchon lançou seu primeiro livro em 1963, ano em que Salinger parou de publicar. Pelas décadas seguintes, nada mais saiu de Salinger, enquanto alguns livros de Pynchon apareciam - de forma irregular, é verdade, com intervalos de até 17 anos entre um e outro. Salinger também não se deixava fotografar e tinha umas manias bem esquisitonas, parecidas com o que falavam de Pynchon.
Mas as semelhanças paravam por aí: Pynchon era claramente um escritor pós-moderno, de olho na cultura pop dos EUA, pé fincando no underground e com uma veia satírica profunda, enquanto Salinger sempre foi mais clássico, na tradição de uma ficção séria e mais adequada aos círculos literários conservadores. Salinger é grande, já foi mais influente, mas ainda é muito lido por conta de seu best seller Apanhador tchananans (tipo um Iron Maiden da literatura, que sempre renova seu público adolescente).
Pynchon corre por fora, em um registro muito mais caótico e underground. Mas vem ganhando relevância e influência nas últimas décadas. E não só na literatura.
Com exceção do Smurf Gênio, é difícil imaginar alguém hoje em dia que queira ser chamado de intelectual literário.
_Thomas Pynchon, em artigo de 1984 para o New York Times
2.
Nascido em 1937, Pynchon é de uma geração intermediária entre os beatniks e os hippies, inserida numa contracultura desconfiada de qualquer tipo de governo e com a lembrança ainda recente da histeria anticomunista do senador republicano Joseph McCarthy, uma espécie de Bolsonaro mais caipira (e menos burro) dos anos 1950. Era bem a época em que os EUA estavam a caminho de um envolvimento muito maior em política externa, pegando a deixa dos antigos poderes coloniais pelo mundo todo, e no auge do complexo industrial-militar que fazia rodar o país, em tempo de Guerra Fria.
Pynchon lançou V., seu primeiro livro, em 1963 - numa época em que não havia nada parecido na literatura dos EUA ou, arrisco dizer, em qualquer outro lugar.
A sinopse? Boa sorte para tentar entender (e não que eu fosse dar spoilers aqui).
O livro talvez trate da busca de um tiozão chamado Herbert Stencil por uma mulher conhecida apenas como V., que aparece e desaparece em momentos cruciais da História. Também talvez possa narrar a trajetória de Benny Profane, um ex-marinheiro perdido na Nova York de 1956 e que se envolve com um grupo de beatniks meio doidos e arranja empregos como caçar jacarés nos esgotos de Nova York (sério, isso existiu). As histórias convergem quando Stencil contrata Benny para descobrir afinal quem - ou o quê - é V.
Descobri esse livro quando era adolescente. Em V for Vendetta, de Alan Moore, o protagonista se chama V. Num Reino Unido distópico (no futuro distante de 1997, pense você), lê trechos do livro de Pynchon para Evey, que é sua pupila (mas que ainda não sabe que vai ser pupila, e que para isso vai ter que passar por uns métodos bem heterodoxos de recrutamento).
Mas não foi para falar de Alan Moore que eu vim aqui, apesar de ele ser a primeira peça do quebra-cabeças. Basta saber que comprei o livro de Pynchon em inglês assim que pude, influenciado e intrigado pela citação de Moore. Foi um dos primeiros livros de mais de 500 páginas que eu li.
Essa viagem paranóica, onírica e completamente sem concessões para o leitor foi minha introdução ao mundo de Pynchon. Depois só melhora: The Crying of Lot 49, uma novela mais curtinha, saiu em 1966. Gravity’s Raibow, seu livro mais importante e conhecido, saiu em 1973. Foi esse que me ganhou para sempre.
3.
Em The Crying of Lot 49 (O leilão do lote 49), Oedipa Mass vive numa nice, numa relax, numa tranquila, numa boa na California - até que descobre que foi nomeada executora do testamento de um véio da lancha com quem tinha um caso, Percy Inverarity. A partir daí, ela entra numa espiral de descobertas e enigmas de um mundo paralelo, delirante e paranóico (eita! de novo?), construído em torno da briga entre duas companhias de correspondências ao longo dos séculos. No meio disso tudo, aparece ainda uma banda de garagem, os Paranoids, um ex-ator infantil e um intelectual reaça estilo Pondé, chamado Mike Fallopian, além de muitas outras esquisitices. Tudo em cerca de 150 páginas, um prodígio de concisão e edição para Pynchon. Teorias da conspiração, histórias obscuras, psicodelia californiana, História dos correios, trocadilhos infames e muito mais aparecem nessa viagem. E ainda tem o marido de Oedipa, um efebófilo viciado em LSD chamado “Mucho” Maas - o que mais você precisa saber para ler o livro?
4.
Agora a coisa complica. Gravity’s Rainbow (O Arco-íris da Gravidade), se não for o melhor livro da história da humanidade, é um dos dez mais. Ou dos cem mais, sei lá. Mas é bom. E para caralho. O que foi? Tá desconfiando de mim?
São mais de 700 páginas de toda a loucura e paranóia que você possa imaginar. Um Guerra e Paz viajando no LSD, um Irmãos Karamazov ao som do Velvet Underground, um Ulysses caindo de bêbado (quer dizer, mais ainda). O livro era tão transgressor para a época que a velharada do conselho do Prêmio Pulitzer deu chilique quando Gravity’s Rainbow foi escolhido em votação como a melhor obra de ficção de 1974. Decidiram não dar o prêmio, citando que o livro era ‘ilegível, obsceno e túrgido’ (seja lá o que isso queira dizer).
A história é aparentemente sobre Tyrone Slothrop, um tenente obcecado por teorias da conspiração e que faz parte de uma organização secreta do Exército dos EUA na Segunda Guerra Mundial. Com suas ereções em momentos aleatórios, Slothrop consegue detectar com exatidão a aproximação das bombas V-2 alemãs e, consequentemente, prever onde cairiam.
Prodígio da engenharia do Terceiro Reich, essas bombas voadoras V-2 eram lançadas sobre Londres continuamente, fazendo um hipérbole super bem desenhada após o combustível acabar, em um voo quase silencioso, até atingir seus alvos. Foram precursoras do programa espacial e dos mísseis nucleares dos EUA, sob comando de cientistas alemães que foram recrutados pela OSS (a futura CIA) no final da Guerra, e que também levaram com eles para o exílio na América uns pedófilos agentes da SS que depois ensinaram técnicas de tortura em países da América Latina e foram responsáveis por
Não sei se tem muito mais o que falar que possa esclarecer do que se trata o livro. A história envolve Contracultura, Segunda Guerra Mundial, racismo, complexo militar-industrial dos EUA, colonialismo alemão na África do começo do século XX, tesão por combustíveis fósseis (que é o que impulsiona as bombas V-2 alemãs), plástico e materiais sintéticos, BDSM, teorias da conspiração, cultura pop, personagens que apareceram em outros livros de Pynchon, personagens reais em contextos bizarros, coprofagia e muito da história do mundo desde a década de 1920. Ah, e já falei do LSD?
Denso e cheio de temas enciclopédicos e citações, é um livro em que, com a ajuda de internet e IA, hoje seria razoavelmente fácil de descobrir de onde vêm muitas das referências - claro, se você sabe o que buscar. Mas, numa época em que a internet estava começando, era um esforço inglório entender metade do que Pynchon falava. Talvez venha daí meu fascínio pelo livro; além do desafio de entender a intrincada história, os assuntos e citações que Pynchon enfiava no meio me faziam ir atrás de mais informação. Aprendi muito. E não fui só eu.
5.
Muita gente boa na cultura pop foi influenciada por Pynchon. Paul Thomas Anderson não só baseou seu filme vencedor do Oscar numa obra de Pynchon de 1990, Vineland (mas não é uma adaptação literal) como também adaptou Inherent Vice (2014) e, ainda, se inspirou em Pynchon para outro filme seu, The Master, de 2012.
Mas no cinema há um filho bastardo de Pynchon que muita gente não considera: O Grande Lebowski, de Joel e Ethan Cohen, de 1998, é praticamente um filme ‘pynchoniano’ e é uma espécie de homenagem que beira o plágio, diga-se de passagem. Está tudo lá: das teorias da conspiração às subculturas da California, até o personagem central - aliás, quem achou o personagem de Di Caprio parecido com o Dude, de O Grande Lebowski, saiba que não é por acaso.
Nos quadrinhos, já falei de Alan Moore - que foi quem me fez descobrir Pynchon - mas também há muitos outros, como Daniel Clowes, com seu universo muito influenciado pela mesma mistura alucinada que Pynchon faz. Frank Miller, outro importante quadrinista dos anos 1980, chegou a desenhar a capa de uma nova edição de Gravity’s Rainbow para a Penguin. Na animação, não preciso nem citar Matt Groening e os responsáveis por os Simpsons - há dois episódios com a participação de Pynchon, como mostram os GIFs por aí no texto (e Pynchon, fã do seriado, deu ideias para algumas das piadas dos episódios em que aparece).
Na música, a lista é longa, desde citações até inspiração: Laurie Anderson, Soft Machine, Radiohead, John Zorn, Warren Zevon, Poster Children, Pere Ubu, Devo e um longo etc. Nem um pouco surpreendente, tendo em vista que em The Crying of Lot 49 há a banda de garagem chamada Paranoids (e na vida real, algumas bandas já adotaram esse nome - típico caso de uma bola óbvia quicando na área). E de volta ao Grande Lebowski, a banda do filme, a niilista/punk/new wave/technopop Autobahn, é obviamente inspirada nos Paranoids de Lot 49. Ainda na música, Tyrone Slothrop, protagonista de Gravity’s Rainbow, aparece na capa do disco de uma fictícia banda psicodélica britânica, The Fool.
Os livros de Pynchon, por sua vez, estão cheios de referências a figuras da cultura pop, filmes, músicas, cenas que são paródias de filmes clássicos. O cara tem jeito de ser um voraz e atento consumidor da cultura pop do século XX e isso aparece em seus escritos. Nada mais natural que esse constante ciclo de antropofagia cultural de mão dupla aconteça, em que criadores influenciados por Pynchon fazem referências à sua obra, da mesma forma que o autor saqueia cinema, música, HQs e TV sem dó.
“Eu também sou pós-moderno”
_Caetano Veloso, em alguma entrevista perdida de 1989, creio que na Folha de São Paulo.
Há especialmente um diretor de cinema que é altamente influenciado por Pynchon, apesar de poucos fazerem a conexão: Wes Anderson. O mesmo clima farsesco, roteiros intrincados, cheios de detalhes, referências e o senso de humor irônico são características muito próximas entre os dois. Mas é no batismo dos personagens que Wes Anderson parece mais influenciado. Thomas Pynchon, aliás, é um dos melhores autores da história para nomes; dá uma olhada no greatest hits de seus livros, que compilei abaixo:
Tyrone Slothrop
Pirate Prentice
Captain Dominus Blicero
Katje Borgesius
Clayton "Bloody" Chiclitz
Albert Krypton
Scorpia Mossmoon
Lord Blatherard Osmo
Kevin Spectro
Oedipa Maas
Wendell “Mucho” Maas
Percy Inverarity
John Nefasti
Mike Fallopian
Gengis Cohen (o melhor, um filatelista judeu de LA)
Professor Emory Bortz
Reverend Wicks Cherrycoke
Benny Profane
Herbert Stencil
Pig Bodine
Rachel Owlglass
McClintic Sphere
Paola Maijstral
Blodgett Waxwing
Shale Schoenmaker
Dudley Eigenvalue
Zoyd Wheeler
Frenesi Gates
Brock Vond
Muitos são anagramas, outros trocadilhos, alguns só piadas bestas. E tudo funciona maravilhosamente bem.
E uma informação extra aqui: no livro Mason&Dixon, de 1997, Pynchon apresenta um personagem chamado Nevil Maskelyne. Achei que era mais um dos nomes bizarros que ele criava para seus personagens. Descobri depois que é uma pessoa real: o britânico Nevil Maskelyne (1732-1811) tinha o cargo de Astrônomo Real e foi a primeira pessoa a medir cientificamente a massa do planeta Terra.
6.
Se o nosso mundo sobreviver, o próximo grande desafio virá — você ouviu primeiro aqui — quando as curvas de pesquisa e desenvolvimento em inteligência artificial, biologia molecular e robótica convergirem.
_Thomas Pynchon, em artigo de 1984 para o New York Times
Durante anos, Pynchon esteve na contracultura. Mesmo assim, fez um certo sucesso e seus livros sempre entram na lista dos mais vendidos. Desconfiado de tudo e de todos, durante anos foi considerado um autor de talento, mas que vive em seu próprio universo e cultuado por um grupo pequeno e devotado de fãs.
No século XXI, no entanto, o comentário ácido, farsesco e irônico de Pynchon sobre a sociedade ocidental e os EUA em particular começou a parecer perigosamente muito mais uma profecia do que diversão literária e pós-modernismo.
Não dá para deixar de pensar que é vintage Pynchon uma história em que um especulador imobiliário cafona, com um nome que parece inventado, vira presidente dos EUA e começa a encher o governo federal dos maiores escroques, psicopatas, sociopatas, supremacistas brancos e doidos de pedra.
E não só. Tudo nessa história é distópico ao ponto de dar a impressão de ser uma grande viagem alucinógena exageradona:
o governo federal solta nas ruas uma milícia mascarada para cometer crimes, violentar cidadãos e deportar à força multidões de pessoas inocentes;
o Departamento de Justiça publica frases supremacistas em seus comunicados públicos e não se importa - e até se orgulha - de parecer racista;
o Secretário de Defesa é um ex-apresentador de TV e podcasts que tem tatuagens fascistas e racistas e trata documentos ultrassecretos como se fossem a lista de compras da quitanda;
o Secretário de Saúde ataca vacinas e a ciência, sabota políticas públicas, faz em público flexões na barra sem camisa e de calça jeans, abandona um cadáver decomposto de filhote de urso no Central Park, tem um parasita alojado no cérebro e é o sobrinho demente de um antigo presidente assassinado e filho de um candidato a presidente, também assassinado décadas antes;
o presidente é acusado por suas associações com uma sociedade secreta de pedófilos formada por subcelebridades, cientistas, bilionários e até mesmo um nobre inglês; para desviar o foco do assunto, envolve irresponsavelmente o país em guerras no exterior;
o presidente apresenta planos de anexar a Groenlândia aos EUA, ao mesmo tempo em que desconfia-se que seja controlado à distância pelo presidente da Rússia ou pelo primeiro-ministro de Israel, que estariam chantageando-o com provas de seu envolvimento com o dito círculo de pedofilia;
o homem mais rico do mundo e aliado do presidente tem um nome ridiculamente pynchoniano, Elon Musk. É um sociopata bilionário, recalcado e esquisitão, com fixações fálicas. Constrói foguetes para colonizar a Lua e Marte, fabrica carros elétricos de design duvidoso, mama no dinheiro público e age o tempo todo como um molecão punheteiro de 16 anos;
e, finalmente, tudo isso acontece num contexto em que meia dúzia de bilionários nerds misóginos, suas Big Techs e sua IA dominam a tecnologia e os meios de comunicação, desenvolvem armas de destruição em massa para o governo dos EUA e monitoram cada mínimo detalhe da vida da população mundial conectada à internet.
Pode parar tudo.
Quando a realidade se torna mais estranha do que a literatura, dá vontade de cortar todo o rastro digital possível, se enfurnar em casa e voltar para as páginas de alguns dos melhores livros que já li, dar umas boas risadas e pensar que, como diria o tio Bill Burroughs (outro doidão e grande influência de Thomas Pynchon): “Não é porque você é paranóico que não quer dizer que não estejam por aí para te pegar”.





