Empate fora de casa é um bom resultado
Tocando de letra, nas memórias antigas do futebol.
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Intro.
Quem já leu aqui as minhas opiniões polêmicas sobre cinema, música, política, literatura, ciências sociais, gêmeas do OnlyFans ou ponderações filosóficas de inúmeras correntes, vai se espantar de saber que sou um fã de futebol.
Ou era, sei lá.
Sim, até hoje você pode perguntar que cazzo está acontecendo no Campeonato Brasileiro e vou saber dar mais ou menos um retrato fiel do que rola dentro das quatro linhas (opa, não aquelas do Jair) e, também, na tabela do Brasileirão.
E mais: vou saber falar sobre o escrete canarinho, discorrer sobre o telecoteco, o balacobaco e o ziriguidum dessa gente bronzeada que mostra seu valor com a amarelinha. Se apertar mais, saberei nomear toda a escalação titular da seleção na Copa de 1982, discorrer sobre os jogos da Copa de 1970 em que Pelé quase fez os maiores gols da história e até mesmo expor com detalhes todas as cinco Copas do Mundo que o Brasil ganhou até agora.
A verdade é que já fui mais do futebol. O que mudou? Não havia pensado muito nisso até ler, com certo atraso, Fever Pitch, de Nick Hornby, livro de 1992.

1.
O campo era bem pequeno e as arquibancadas de cimento ocupavam só parte do estádio. Do outro lado, arquibancadas provisórias de aço e madeira e aquilo que se chamava "geral” - um espaço concretado que existia antes em estádios e de onde se assistia ao jogo em pé mesmo, no nível do gramado.
Eu tinha entre 4 e 8 anos e, a cada duas semanas, assistia ao jogo do time local, o Clube Atlético Guaçuano, que mandava suas partidas no improvisado estádio municipal. Não era um programa de família. Era restrito apenas a meu pai e eu.
(Um dia, a empregada lá de casa, que estava de folga e aparentemente não tinha nada melhor a fazer do que ir a um jogo de futebol, viu a gente no meio da chuva, torcendo pelo Mandi (o apelido do time, por conta dos peixes do rio que cruzava a cidade). No campo, um lamaçal de fazer inveja aos piores jogos da segunda divisão inglesa. Um rolo de papel higiênico havia se enganchado em cima do guarda-chuva que eu dividia com meu pai. Arremessar um rolo inteiro como se fosse serpentina era algo que torcidas faziam naquela época - nunca entendi o motivo. Também alguns levavam laranjas, cujo único uso aparente era mandar com força nos jogadores ou nos árbitros).
Essa rotina de ir ao estádio deve ter começado em algum momento em que ficou claro para meus pais que futebol era algo importante para mim. Jogava sempre que podia no quintal de casa, entre roupas penduradas no varal para secar, ou no terreno baldio do lado de casa com um gramado bem irregular, mas que dava para traçar uma trave na parede, com giz. Jogava futebol de botão, desenhava cenas de jogos, lia o caderno de esportes dos jornais, assistia aos jogos pela TV.
Comecei a acompanhar futebol cedo, mesmo em uma cidade que estava longe de jogos relevantes - o máximo que havia eram os jogos de Ponte Preta ou Guarani a dezenas de quilômetros dali. Era uma região meio esquecida do estado e que só começou a ter jogos da primeira divisão anos depois, quando o time da cidade vizinha chegou ao “grupo de elite do nobre esporte bretão”, como diria algum bocó de mesa redonda por aí.
Na baixa Mogiana, em cidade de imigração italiana, não havia como errar: Palmeiras era um time forte. Dividia torcida quase meio a meio com o onipresente Corinthians. Minha família toda era palmeirense - com exceção do meu pai, cujo maior mistério que carregava parecia ser para qual time torcia (Nunca contou qual era, mas era forte a desconfiança de que fosse corintiano).
Para facilitar, resolvi escolher um time que era completamente alheio à dicotomia da cidade e que estava ainda longe da época de glória que futuramente lhe trouxe muitos torcedores. Para ter uma ideia, entre os centenas de alunos do colégio onde eu estudava, só havia mais um que torcia para o mesmo time que eu. Talvez eu quisesse ser alternativo, ou ir contra o dogma familiar. Talvez eu gostasse de ver o rosto confuso dos adultos que perguntavam “E as namoradinhas no colégio, hein? E aí, torce para o Verdão também?"
Mas acho que foi mesmo só uma escolha por algum jogo que me marcou, pelos jogadores ou, talvez, pelo uniforme, que era bem diferente em relação aos outros. De qualquer forma, na minha festa de aniversário de 6 anos, o tema foi futebol. Como decoração do bolo, dois times de bonequinhos com uniformes de papel estavam posicionados no campo confeitado: o Palmeiras de um lado e, do outro, o meu time do coração: São Paulo.
2.
Tenho foto dessa festa. Bandeira gigante do São Paulo ao fundo, bolo com os dois times prontos a iniciar o jogo, todos os detalhes com uma decoração bem temática do tricolor paulista. Usei uniforme completo - o nº2, com listras verticais, que eu gostava mais. Quase ninguém entrou no clima: só havia mais um convidado com uniforme. Um primo de segundo grau, com a amarelinha da seleção brasileira.
Meses depois, ele fez uma festa com a mesma ideia: usou os mesmos bonequinhos, fez o bolo com a mesma confeiteira, tudo exatamente igual, mas em verde, azul e amarelo. Só alguém com muito pouca personalidade para fazer uma festa temática com o escrete canarinho: parece ser de caso pensado para não ser criticado por nada, ficar numa zona cinzenta sem qualquer tipo de emoção maior, polêmica ou antagonismo. É meio perguntarem qual sua banda preferida e você responder U2 ou Coldplay.
Mas todo esse verde e amarelo faz também pensar que era um prototípico evento bolsonarista, já que tudo indica que esse primo evangélico apertou 22 com força. Não tive muito contato com o primo depois desse episódio, mas soube que ele e a mãe apareceram nos jornais há alguns anos, em um esquema de fraude de concursos públicos e vestibulares. Brasil-sil-sil-sil-sil!
Eu acompanhava todos os jogos, sabia tudo sobre os campeonatos - Brasileiro, Paulista e o que mais aparecesse - conhecia toda a escalação e admirava alguns grandes jogadores tricolores. Nessa época, Pita para mim era maior que Zico. Oscar era o dono da grande área, um dos maiores zagueiros do futebol brasileiro - e poderia fazer a melhor dupla de zaga da história da seleção, se o uruguaio Dario Pereyra tivesse se naturalizado. Até Serginho Chulapa virava centroavante genial, mesmo que seus gols de canela ou barriga fossem tão frequentes quanto os de cabeça (subestimado, Chulapa era o típico centroavante de banheira, tradicional no futebol brasileiro - mas funcionava, e é o que importa. O cara é o maior artilheiro do São Paulo até hoje e o terceiro maior do Santos na era pós-Pelé).
Depois, veio o técnico Cilinho, que revelou um monte de novos nomes, montando times que logo viraram base de seleções brasileiras. Mas foi no começo dos anos 1990 que tudo mudou - com o melhor time do São Paulo em toda a história e, não por acaso, comandado pelo maior ídolo do clube em todos os tempos.
3.
São Paulo não é um time comum: seu maior nome não é o de um jogador. O técnico Telê Santana é quem garantiu o lugar do São Paulo na História do Futebol, apesar de um bando de cururus achar que aquele ex-goleiro calvo que toca Pink Floyd em mesa redonda é maior.
Lembro da chegada de Telê, que estava em baixa no mercado, depois da derrota na Copa de 1986. Telê caiu na fogueira de uma decisão do Paulista com o Corinthians. Perdeu por 1 x 0. Vi pela TV, com narração de Silvio Luiz e comentários do Rei do Gatilho Mário Sérgio Pontes de Paiva, que espinafrou o desafeto Telê até não poder mais: “já passou o tempo dele, tem que dar espaço para os mais novos e que sabem o que acontece no futebol de hoje”.
Bom de bola, melhor ainda de treta e péssimo de previsões, Mário Sérgio errou tão feio na avaliação quanto na vez em que achou ser uma boa ideia atirar para o alto, para dispersar a torcida que bloqueava o ônibus do seu time. Nos anos seguintes, Telê levou o São Paulo a uma sequência de conquistas inéditas para o clube e algo que o futebol brasileiro não via há muito tempo, desde o Santos dos anos 1960: Libertadores em cima dos marrentos argentinos, Mundial em cima de alguns dos melhores times que Milan e Barcelona já tiveram, vitórias a rodo em todos os campeonatos locais. Virou referência não só no Brasil, como no exterior, e os times que montou são considerados alguns dos melhores da história.
Foi mais ou menos o último período em que, de fato, o futebol teve algum papel importante na minha vida.
4.
“Eu me apaixonei pelo futebol como mais tarde me apaixonaria pelas mulheres: de repente, inexplicavelmente, sem senso crítico, sem pensar na dor ou na confusão que isso traria.”
_ Nick Hornby, Fever Pitch
A paixão obsessiva de Hornby pelo futebol começou em 14 de setembro de 1968. Após assistir com seu pai à sua primeira partida em Highbury, estádio do Arsenal, Hornby adotou o time para sempre. Time londrino tradicional, o Arsenal é um dos mais estáveis na história do futebol inglês. O último rebaixamento foi na temporada de 1912-1913. Essa estabilidade é algo que tem a ver com o São Paulo - junto com o Flamengo, são os únicos no futebol brasileiro que nunca foram rebaixados.
O livro é estruturado em capítulos que se referem a partidas de futebol entre essa data inicial e a data final de 11 de janeiro de 1992. A escolha do marco temporal não é por acaso: Hornby mede tudo pela sua relação com o Arsenal e faz uma crônica autobiográfica de amadurecimento, decepções e mudanças de vida, em paralelo à sua paixão pelo time em primeiro lugar, futebol em segundo.
Surpreendentemente, não é uma relação que traz alegria a Hornby. O que ele mais relata são momentos de tensão, ódio e frustração. Time retranqueiro durante a maior parte da história narrada por Hornby, o Arsenal é pródigo em decepções, empates feios, chutão pra frente, chuveirinho na área e pouca inspiração. Passa anos e anos sem um título relevante. Quando inicia uma fase vencedora, é só para depois cair de novo na mesmice que Hornby expõe, página após página.
Hornby reconhece o jeitão patológico da sua história com o Arsenal. Ao partir para a universidade, pensa ter se encerrado essa relação com o time. Redescobre o futebol com o pequeno time local e volta a se descabelar com o Arsenal como se fosse uma segunda infância. Inseguro na vida, parece ter o Arsenal sempre como um suporte psicológico. Nada pode ficar no caminho: amigos e namoradas sabem que a cada dois finais de semana precisam pensar bem antes de marcar algum compromisso, para não coincidir com jogos do time em casa; mesmo nas outras semanas, pode haver algum jogo fora que seja importante, ou uma Copa Européia. Hornby deixa de ir a festas e casamentos, evita qualquer evento que possa atrapalhar sua obsessiva presença nos jogos.
Hornby consegue, em algum momento, equacionar essa obsessão. Da minha parte, nunca tive esse nível de envolvimento e, a partir de um determinado momento, o futebol deixou de ser importante para mim e outros interesses foram se sobrepondo: música em geral, quadrinhos, cinema, economizar dinheiro para viagem ou para shows - e, também, para pagar os boletos, que não tem moleza. A vida foi levando para outro lado e torcer não tinha mais um papel tão central assim.
Ainda vi a derrota do São Paulo nos penaltis numa final de Libertadores (que poderia ter dado o terceiro título seguido ao clube). Foi numa TV de 5 polegadas, numa madrugada gelada de São Paulo, na pensão em que eu morava. Depois, uma fase de baixa do São Paulo e a ascensão do Palmeiras multimilionário com o dinheiro da Parmalat mostrava que os tempos estavam mudando. A Copa de 1994, com uma seleção campeã jogando mal, certamente contribuiu mais ainda para a minha falta de interesse no futebol.
5.
Deixei o futebol para lá, em meio a tantos outros interesses, mas ainda acompanho. Continua sendo algo que não me é estranho e consigo me divertir ao ver um jogo, seja num estádio (o último foi em Belo Horizonte, no Independência, um Galo x Ponte Preta. Torci para um alvinegro, claro), seja pela TV, como a última Copa do Mundo.
Seguir ou não futebol, para mim, nunca foi uma questão de hierarquia ou superioridade intelectual. Sei que tem gente que despreza futebol como algo menor. Nada mais falso: grandes autores, inclusive, já escreveram, e bem, sobre o tema. Nelson Rodrigues era fã e comentarista e sempre tratou do futebol com seriedade. Era também irmão de Mário Filho, um dos maiores cronistas do esporte no Brasil e que virou nome de estádio - o Maracanã é, oficialmente, Estádio Jornalista Mário Rodrigues Filho. O cronista Paulo Mendes Campos, por outro lado, tangenciava o futebol em crônicas e, dizem, era um centroavante razoável em campo.
Mas é fato que nem todos gostavam. Lima Barreto, cronista do Rio do final do século XIX e começo do século XX, tinha sérias restrições ao esporte, mas por motivos diferentes do esnobismo cultural de alguns intelectuais das últimas décadas. O escritor considerava o esporte elitista e uma forma de colonialismo cultural, um modismo importado que nada tinha a ver com o Brasil e que fracassaria por aqui, por não ter apelo popular. Sempre que podia, descia o sarrafo no futebol e, especialmente, nos paulistas, que ele considerava como a ponta-de-lança desse imperialismo britânico. Em uma crônica, fala da marginalidade associada aos fãs de futebol; noutra, esculacha a disputa entre clubes de elite de São Paulo e Rio.
Lima Barreto também criticava algo que parece distante do futebol atual: havia uma forte segregação racial e, inclusive, ele chegou a escrever um artigo no Correio da Manhã para criticar a decisão do governo brasileiro de não levar “homens de cor” para um torneio disputado em Buenos Aires, em 1921.
Defensor da capoeira como esporte nacional em oposição ao elitista e segregacionista “esporte do pontapé”, o garoto-enxaqueca do pré-modernismo chegou a criar uma Liga anti-Football e não deixava barato, sapecando frases como essa: “Tudo tem um limite e o Football não goza do privilégio de cousa inteligente".
Nick Hornby ama futebol, mas não deixa de ter o olhar atento para os problemas: fãs racistas, violência, misoginia, mercantilização excessiva. Sua paixão pelo futebol existe apesar dos problemas que sabe muito bem quais são. É como outro amante do futebol, o escritor uruguaio Eduardo Galeano, que entendia o esporte como indissociável do contexto social e político e amava os grandes lances, as grandes histórias e os grandes craques do jogo. Durante Copas ou partidas importantes, Galeano pendurava na porta de sua casa um cartaz escrito “Cerrado por Fútbol”, para evitar que o chateassem durante os jogos que seguia obsessivamente. “Futebol é uma alegria que dói”, dizia Galeano.
6.
Dor e alegria: Nick Hornby conta que 1968 foi o ano mais traumático de sua vida - em boa parte devido ao fim do casamento de seus pais. Foi também o ano em que Hornby descobriu o Arsenal, meio por acaso. Ninguém em sua família torcia para o clube e seu pai tentava achar algo para fazer com o filho nos finais de semana alternados em que buscava Nick na casa da ex-esposa. Pouco tempo depois, o pai de Hornby se mudou para outro país, mas Nick continuou a ir aos jogos do seu clube para toda a vida. Fonte de decepções no campo, o Arsenal ajudava, no fundo, a superar outras frustrações: divórcio dos pais, separações, fracassos profissionais, perdas em geral.
Para mim, ir ao estádio com frequência durou pouco. Deve ter começado quando meus pais perceberam meu interesse por futebol. Clássico movimento: talvez fosse para ajudar na minha socialização, mesmo com minhas escolhas um tanto ou quanto estranhas, como torcer para um time para quem ninguém torcia, ou querer luvas de goleiro como presente de Natal.
Por volta dos 8 ou 9 anos, ir aos jogos deixou de ser um programa constante. Não lembro exatamente o que houve, e nem quando foi a última vez que fui. Só sei que, em algum momento, o domingo deixou de ser um dia em que as tardes em semanas alternadas eram dedicadas a esse programa em que íamos apenas eu e meu pai. Talvez fosse uma forma de meu pai se aproximar, demonstrando interesse por algo que era importante para mim. Durou pouco e, em algum momento, esse interesse deve ter perdido a força. E não voltou a existir pelos trinta anos seguintes.

