Nosso homem em Miami
A América Latina, seus Cipayos e o eterno retorno do imperialismo.
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Intro.
“Los Estados Unidos parecen destinados por la Providencia a plagar la América de miserias en nombre de la libertad”
_Símon Bolivar (1783-1830)
Não é surpresa. No continente latino-americano, a história se repete constantemente como farsa, parafraseando o barbudo que volta e meia dá as caras por aqui. Cortesia do grande irmão do norte, os Estados Unidos da América.
Desde a doutrina Monroe, os ianques tratam o continente todo como quintal deles - e olha que, na época em que o 5º presidente dos EUA formulou essa pilantragem, ainda não tinham afanado metade do México na mão grande.
É treta longa e há muitas interpretações, verdades escondidas, fabulações e muita gente boa que já escreveu sobre isso. Desde as independências da América Espanhola e do Brasil, nas primeiras décadas do século XIX, os EUA passaram a ter um papel muito mais presente nas Américas e assumiram o vácuo deixado pelas potências européias.
É do jogo, especialmente nesse período da história. Quem tinha pretensão de poder, e meios para fazer valer a sua vontade, prevalecia num ambiente sem leis claras. Há duzentos anos, as relações internacionais eram regidas muito mais pela força bruta e pela coerção. Tudo isso mudou desde a Segunda Guerra Mundial, quando se estruturou um sistema multilateral de regras, normas e parâmetros para uma convivência razoavelmente pacífica entre as nações.
Ou melhor, até agora, agorinha mesmo. De uns anos para cá, os parâmetros do Direito Internacional estabelecidos ao longo do século XX passaram por uma desconstrução acelerada, levada a cabo pelo governo Trump e que ameaça empurrar o mundo - e a América Latina especialmente - de volta a essa época em que mandava quem podia, obedecia quem tinha juízo.
Não é somente disso que se trata essa mumunha aqui. Sabemos que, se bobear, o Tio Sam sempre vai dar uma banana para essa gente bronzeada e tocar o horror na selva da Amazônia ou na geleira da Patagônia sem a menor cerimônia. Mas o que eu tenho mais interesse em explorar é outra vereda, intrinsicamente ligada ao imperialismo ianque.
Apesar da pose de cowboy com dedo no gatilho, os EUA sempre tiveram pavor da expressão “botas no chão” (boots on ground, no original). Quer dizer: os gringos querem fazer e acontecer, mandar soltar e prender nesses tristes trópicos, mas não querem ter que sujar as mãos para isso. Se tem uma coisa que deixa puto o contribuinte ianque é saber que seu imposto está financiando objetivos geopolíticos em um lugar que sequer sabe onde fica, ou que seu filho vai ter que vestir um uniforme e ralar num conflito em algum país do qual não sabe pronunciar o nome.
Até Donald Trump e seu cosplay de latino Marco Rubio sabem que não basta mandar míssil, drone ou qualquer outro meio de destruição teleguiada para controlar um país inteiro. E um país, inclusive, costuma vir com algo complicado dentro, chamado “pessoas” - e na maior parte dos casos, milhões delas. É o dilema do opressor: como controlar e mandar, sem precisar descer para o play?
E é aí que entra o nosso herói sem nenhum caráter, - no sentido mais comum da expressão, e não no macunaímico - El Cipayo.
1.
Mesmo sem nunca ter ouvido falar nesse tal de Cipayo você deve saber do que (ou de quem) se trata. Com certeza já cruzou com ele por aí. Sabe-se que é uma figura antiga das Américas, até folclórico e estereotipado, mas bem real e nada exagerado. Não é um Supay (demônio folclórico dos Andes), um Saci Pererê, um Zé Pelintra ou nem mesmo um ET de Varginha. Esse nome é bastante usado na América Espanhola e é pouco comum no Brasil; porém, o personagem é figurinha fácil por aqui também. Basta saber para quem olhar.
Apesar de ser mais usado entre hispanohablantes, o termo originou-se do português de Portugal: sipai ou cipaio, vindo de shipahi, do idioma hindi, que significa soldado. Eram soldados e policiais recrutados localmente no subcontinente asiático, que trabalhavam para os colonizadores portugueses.
Os ibéricos foram os primeiros a usar os serviços dos locais para seus objetivos colonizadores, mas os britânicos tomaram nota e reproduziram o sistema em todo o seu nascente sistema colonial, que substituiu aos poucos a presença portuguesa na Ásia.
Fácil entender o motivo de Portugal ter recorrido a essa estratégia: era um país pequeno e as Grandes Navegações expandiram absurdamente a presença portuguesa no mundo. Por isso, é natural que a exploração portuguesa fosse baseada muito mais em alianças (ainda que assimétricas) e em misturas com povos locais, do que no uso da força bruta - que não estava ausente, claro.
Não que não houvesse treta entre os aliados e que os sipais fossem submissos. Em 1857, iniciaram um rebelião contra a Companhia das Índias Orientais, que mandava e desmandava no país deles. A revolta era pela crescente e sutil ocidentalização da sociedade e contra a perda dos postos de poder na administração local pela aristocracia indiana. Não deu em nada, mas serviu de alerta para os britânicos.
Na maciota, esses demônios de olhos azuis, como eram conhecidos nos trópicos, passaram a ser mais espertos - entenderam que compensava mais dominar quem dominava, do que ter que controlar cada aspecto da vida local e entrar em atrito constante com uma cultura que não conheciam (e que, muitas vezes, sequer entendiam).
Deu resultado. A dominação cultural e econômica sobre as elites locais foi a pedra sobre a qual o sistema colonial britânico prosperou durante séculos. Ao transformar os oligarcas locais em parceiros no extrativismo colonial, britânicos controlavam países muito maiores e mais populosos do que aquelas ilhas cinzentas da Europa. Dominar quem domina o povo: essa era a fórmula.
2.
E agora voltamos ao nosso terreiro aqui.
A América Latina tem duas vertentes de colonização, como Sergio Buarque de Holanda formulou em Raízes do Brasil:
a América Espanhola era a do “ladrilhador”, com planos urbanísticos e políticas públicas traçados em Madrid e uma burocracia estamental super bem-definida e formada por um topo executivo com os chapetones, espanhóis nascidos na metrópole, seguida duma larga estrutura gerencial de nível médio com os criollos, que eram os brancos nascidos nas colônias e, finalmente, os mestiços, indígenas e africanos escravizados ou libertos na larga base;
o Brasil Português era a colônia do “semeador”, em que havia uma grande expansão desordenada, que era levada a cabo por portugueses emigrados no topo e que se miscigenavam e criavam novas elites locais. Essas, por sua vez, dominavam uma vasta base de escravizados africanos e indígenas, ou então pobres mestiços e até mesmo brancos.
Os nomes dados por Buarque de Holanda vinham das duas formas distintas de empreendimento: super organizada e rígida, no caso espanhol, e descentralizada e fluida, no caso português.
Mesmo com conceitos estruturais diferentes, os dois sistemas eram hierárquicos, elitistas e estamentais. Foram a base da desigualdade que vemos hoje na América Latina e grande motor das inúmeras crises que ainda hoje agitam os estados nacionais da América.
Esses dois sistemas foram responsáveis pelo estabelecimento de elites privilegiadas, culturalmente indissociáveis das metrópoles e que formaram o alicerce do extrativismo que caracterizou a história latino-americana. Com a independência nas Américas e o estabelecimento de Estados nacionais, essas elites passaram a ter outro papel: de linha auxiliar do colonialismo, passaram elas mesmas a assumir o protagonismo extrativista que havia sido exclusivo das metrópoles. Em outras palavras, os termos e condições do acordo comercial foram atualizados e aceitos, e continuaram a parceria que já dava certo desde o começo. Mudar tudo, para que tudo continue como está.
3.
Hora de retomar a Doutrina Monroe lá de cima e o Destino Manifesto, esse outro esteio do imperialismo ianque. Para quem não sabe, esse segundo termo se refere à suposta inevitabilidade de expansão dos EUA até o total domínio geográfico da América do Norte, do Atlântico ao Pacífico e além, irradiando sua influência para o sul. É democracia e liberdade a não poder mais, na visão desses anglo-saxões lá de cima.
(dica: volte lá na epígrafe de Bolívar, no começo do texto, para uma boa definição do que realmente se trata essa ladainha toda).
A descolonização da América Latina e o surgimento de uma potência econômica e militar no norte do continente levaram a um rearranjo de forças. Os europeus perderam influência direta e, aos poucos, os EUA ocuparam o vácuo cultural e ideológico. No final do século XIX, a monarquia brasileira havia caído, as últimas colônias europeias no continente americano acabaram e a aproximação entre EUA e América Latina tornou-se inevitável. E é no século XX que chegamos ao apogeu do nosso personagem.
Os EUA, da mesma forma que rolou antes com os britânicos, usaram a “estrutura” já estabelecida nas sociedades latino-americanas para expandir sua influência econômica e militar, contando com aliados locais. Nessa toada, Miami praticamente virou a capital espiritual da América Latina - um ponto de convergência de elites latino-americanas e de policymakers ianques interessados no domínio do continente, especialmente depois da Revolução Cubana.
Deu muito certo. Tanto que as intervenções diretas dos EUA restringiram-se, até hoje, à área imediatamente próxima ao seu litoral - Caribe, América Central e pouco mais do que isso. Safos que são, os ianques sabem muito bem que países mais ao sul têm dimensões e população muito maiores para se controlar de forma simples e indolor.
É a fórmula colonial britânica ajustada para um continente disposto a participar do jogo: dominação sobre quem domina o povo. Ou seja, contar com um contingente de ‘soldados’ locais, dispostos a rir e a fazer rir.
Sim, eles mesmos: Los Cipayos.
4.
Em 1947, a democracia brasileira ia muito bem - para alguns. Eurico Gaspar Dutra, general de Exército, havia sido eleito pelo voto popular para presidente em dezembro de 1945 (o primeiro em 15 anos por eleição direta) e a Assembléia Nacional Constituinte de 1946, também eleita democraticamente, havia enterrado a Constituição outorgada pelo Estado Novo de Getúlio Vargas.
Foi quando que se aprofundou a aliança entre Brasil e EUA, que vinha da época da Segunda Guerra Mundial. Ficaram unha e carne na defesa do “Mundo livre” contra o comunismo. Tanto que o presidente dos EUA, Harry Truman, encerrou aqui no Rio de Janeiro o seu giro pela América Latina.
Truman assinou com o subalterno Dutra o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) e, em seguida, o Brasil rompeu relações com a União Soviética. Meses antes, em maio, uma canetada de Dutra cassou o registro do Partido Comunista do Brasil, que havia eleito Carlos Marighella e Jorge Amado como deputados constituintes.
E tem mais: um ano antes havia sido criada no Panamá a Escola das Américas, instituição ianque de intercâmbio militar entre os EUA e países da América Latina, e que teve como alunos gente como Galtieri e Viola (futuros ditadores argentinos), Juan Alvarado, ditador do Peru, inúmeros outros generais de todos os países do continente e, num dado que nos interessa aqui, 21 militares brasileiros listados como torturadores no projeto Brasil: Nunca Mais. Nos anos seguintes à criação da Escola, TODOS os golpes militares no continente tiveram participação de formados na instituição.
No Palácio Tiradentes, no Rio de Janeiro, uma cena tornou-se emblemática dessa época: o deputado da conservadora UDN, Octávio Mangabeira, ajoelhou-se perante o general Dwight Eisenhower, herói de guerra e futuro presidente dos EUA, membro da comitiva do então presidente Truman. Penitente e agradecido, Mangabeira beijou-lhe a mão. Ibrahim Sued, que antes de ser colunista social especializado em futilidades era repórter fotográfico, registrou a festeira imagem da submissão das elites latino-americanas.
Pelos anos seguintes, e por toda a América Latina, centenas de milhares de Mangabeiras frutificaram na subserviência à grande potência do Norte.
(Nota de rodapé da história: como o fruto nunca cai longe da árvore, Roberto Mangabeira Unger, neto de Octávio, continua por aí enchendo o pacová com seu sotaque gringo, querendo ensinar Pai-nosso ao vigário e dando opinião em veículo da mídia hereditária sobre o que ninguém lhe perguntou, como sua admiração por Jair Bolsonaro).
Essa anedota deixa bem claro o que é o Cipayo, mas vale uma definição que vem direto do dicionário da ASALE (Associación de Academias de la Lengua Española):
Cipayo, -a.I.1.sust/adj. Cu, Ur. Persona que sirve a los intereses extranjeros en detrimento de los de su país.
Em bom português: pessoa que serve a interesses estrangeiros em detrimento daqueles de seu próprio país. Ou seja, vendido, pau-mandado, traíra, X-9, capacho, vendedor da Pátria, lacaio, subserviente. Coisa ruim mesmo. E duvido que você não conheça esse tipo.
5.
Corta para 70 anos depois do joelho dobrado de Mangabeira.
Em 8 de outubro de 2017, em Deerfield Beach, Florida, EUA, o pré-candidato à presidência do Brasil, Jair Bolsonaro, discursou para brasileiros legais e ilegais, que fizeram longa fila na porta de uma churrascaria rodízio localizada num mall, para um evento de campanha do auto-denominado Mito - que viria a ser eleito no ano seguinte,.
O discurso de Jair pregou o fim da CLT, privatização acelerada, resolução da questão indígena para não “atrapalhar o agronegócio”, combate ao que chamou de terrorismo do MST e, finalmente, a promessa de carta branca para a polícia matar com impunidade. Por último, o que muitos ali queriam ouvir: prometeu que, caso fosse eleito, o então presidente Trump teria um aliado incondicional na América do Sul. Remixou seu lema para “Brasil e Estados Unidos acima de tudo, Deus acima de todos”. Foi aplaudido em pé.
Ao final, Jair Bolsonaro (ex-capitão do Exército e uma espécie de sindicalista verde-oliva no Congresso Nacional por décadas) perfilou-se para ouvir o hino nacional dos EUA, enquanto a bandeira de estrelas e listras era hasteada. Visivelmente emocionado, o ex-capitão bateu continência para a bandeira de outro país.
“Eu não vou fazer uma política de massa (…) o trabalhador tem seu valor, mas o patrão também”
_Jair Messias Bolsonaro, 2017
Em 14 de maio de 2019, já eleito presidente, Jair foi a Dallas receber o prêmio de personalidade do ano da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. Repetiu o discurso e a continência à bandeira, com lágrimas nos olhos cipayos.
6.
De lá para cá, muita coisa mudou. Jair Bolsonaro perdeu a reeleição, mas a América Latina caminhou para a direita. Na Argentina, Javier Milei foi eleito e superou Bolsonaro na subserviência; no Chile, José Antonio Kast foi o primeiro pinochetísta eleito desde o fim da ditadura; em El Salvador, Nayib Bukele virou capitão-do-mato e usa uma prisão de segurança máxima para alojar deportados vindos dos EUA. Em toda a região, aliados subservientes dos EUA estão no poder ou apostam na sabotagem para chegar ao poder (alô, Maria Corina?).
Em julho de 2025, o governo de Donald Trump impôs tarifas alfandegárias altas sobre produtos de exportação brasileiros. Eduardo Bolsonaro, filho do cipayo Jair, foi instrumental nessa ação dos EUA, em parceria com Paulo Figueiredo, neto de um dos presidentes militares da Ditadura e, supostamente, amigo íntimo de familiares de Trump. O objetivo declarado dos dois auto-exilados nos EUA era conseguir anistia para Jair Bolsonaro, indiciado por tentativa de golpe e posteriormente preso. Caso nítido e bem ilustrativo da definição de Cipayo: defesa de outros interesses que não os de seu país. Deu em nada, mas causou prejuízos de bilhões de dólares a empresas brasileiras.
Foi um verdadeiro chá de revelação de Cipayos, apesar de não haver nenhuma surpresa aí. O reflexo condicionado daqueles que costeavam o alambrado do fascismo, como Tarcísio de Freitas ou Romeu Zema, governadores de São Paulo e Minas Gerais respectivamente, fez com que o alinhamento com as tarifas estrangeiras fosse imediato; só a alta possiblidade de queimar o filme com o eleitorado fez com que recuassem em seguida.
(Mais uma nota de rodapé da história: o fruto nunca cai longe da árvore, parte II: em 1982, Ronald Reagan, presidente dos EUA, visitou o Brasil e encontrou-se com o ditador João Baptista Figueiredo, avô de Paulo Figueiredo, aquele sócio de armações de Eduardo Bolsonaro. Num jantar oficial, Reagan brindou ao “grande povo da Bolívia” e agradeceu ao “General Figueroa” pela acolhida. Sorrisos amarelos dos subalternos, mas nada abalou a disposição do regime militar brasileiro em bajular o ilustre mandatário ianque. E para registro: general Figueiredo passou pela Escola das Américas, de que falamos lá em cima).
Epílogo.
Cipayos não aparecem por geração espontânea. Ninguém acorda um dia e decide, do nada, que vai ser um deslumbrado com Miami, admirar a Escola de Chicago, defender bilionário que manda foguete para o espaço ou pregar que o importante mesmo é que a pré-escola seja bilíngue. É uma construção profunda, que vem de gerações e está intimamente ligada à estrutura política, econômica e social de cada país.
Os casos folclóricos que aparecem acima podem dar a entender que fazem parte de uma franja da sociedade. Nada mais equivocado: é um fenômeno bem estabelecido e central na elite da América Latina e tem justificativas muito mais sólidas do que parece haver, em um primeiro olhar. Na próxima edição volto nisso - afinal, nem falamos da Teoria da Dependência, CEPAL e outros bichos. Vamos explicar muito mais, por outro viés. Segura aí que logo mais, tem mais.
Agora, vamos ao intervalo.
“Qué rico es ser latino”
_início do espetáculo do intervalo da NFL: Benito Antonio Martinez Ocasio presenta el espectáculo de medio tiempo del Súper Tazón.
No outro lado do muro, o Super Bowl 2026 trouxe uma apresentação de Bad Bunny, no intervalo entre os tempos daquele esporte lá. Antes mesmo da transmissão, a polêmica rolava solta e era uma treta abraçada com fervor por Trump (e um dos maiores tiros no pé que ele poderia dar). Nem precisa dizer que foi encampada imediatamente pelos cipayos da América Latina, que saíram com quatro pedras na mão para cima de Bad Bunny/Benito, denunciando o que consideram ‘caricatura latina estereotipada e sexualizada’ ou algo assim.
Em pouco mais de treze minutos, o porto-riquenho Benito Antonio trouxe tanta referência que dá para ficar um bom tempo só descobrindo do que se trata tudo aquilo (claro, se você não é latino, leva mais tempo). Ao mesmo tempo, a mensagem tem o imediatismo do melhor pop e faz um apanhado geral da América Latina, a partir da pequena ilha de Porto Rico.
Benito vem de uma linhagem de gente bem esclarecida e versada nos tocos que andaram levando dos ianques, a quem são ligados por uma associação assimétrica, que não lhes faculta plenos direitos e visa submissão total. Antes dele, já houve muita gente militante como Willie Colón, Héctor Lavoe, Ray Barreto, Cheo Feliciano (nascidos na ilha ou emigrados para Nova York), Draco Rosa (sim, o Robby Rosa dos Menudos), Rick Martin (sim, o mais famoso dos Menudos), René Pérez Joglar (a.k.a. Residente) e seu antigo grupo Calle 13, Ivy Queen, Lisa M. (que lutam também contra o machismo da música porto-riquenha), além de muitos mais. Todos orgulhosos da origem latino-americana, mesmo quando fizeram sucesso nos EUA.
Já falei antes do vídeo de Residente, em um texto de 2022. Tem muito a ver com o que Benito apresentou no Super Bowl. E não é por acaso: Benito reconhece os que vieram antes e agradece sempre pela educação prática que o ensinou a não abaixar a cabeça para quem se acha no direito de mandar e desmandar nesses trópicos aqui de baixo.
Colocar isso em um dos eventos mais assistidos e comentados do mundo é um contraponto essencial aos Cipayos e seus superiores, que insistem em manter a América Latina presa nas correntes que lhe foram impostas há séculos.
p.s.: Aviso camarada: procure o vídeo do show do intervalo de Bad Bunny no seu player favorito, já que não consigo postar aqui por motivos de…gente muito cuzona, que quer levar tráfego somente para seus próprios sites. Mas o vídeo o de Residente, do qual eu falo aí em cima, está no texto de 2022, no link. Vale ver os dois.



seria o caso de incluir na sua lista Miguel Piñero?