Algo aconteceu no dia em que ele morreu
Dez anos sem David Bowie - e o Mundo foi ladeira abaixo desde então.
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1.
Já falei antes: um dos maiores arrependimentos que tenho foi de não ter visto um show ao vivo de David Bowie. E tive a chance: em 1997, ele fez show em um festival qualquer em São Paulo, na pista de atletismo do Ibirapuera.
Foi uma conjunção de fatores bem filhos da puta. Eu era estudante (mas já trabalhava), grana curta e jornada de trabalho longa, trabalho de conclusão de curso, boletos a pagar, escolhas difíceis a fazer. Bowie numa fase ruim de doer, desde mais ou menos 1984. Na tentativa de parecer relevante de novo, Bowie estava naquelas de “o tio tá velho, mas tá por dentro”, com versões drum’n’bass de músicas clássicas e fazendo uma música eletrônica genérica demais para alguém tão importante. Mais constrangedor do que Caetano tocando Nirvana.
Claro, nessa época eu era jovem e tinha todas as certezas do mundo. Artista que lançou dois discos ruins na sequência eu já desistia; ou, se dois irmãos fazem um disco revisionista, que parece vir direto dos anos sessenta, merecem um pescoção; e por aí vai. Com tanto artista bom lançando disco importante e gente legal fazendo música que apontava para o futuro, Bowie parecia mais datado do que o Britpop que dominava a música nessa época. Nem o fato de voltar a gravar com Brian Eno e chamar Trent Reznor para uma colaboração adiantava muito.
E ainda por cima havia o próprio festival, o finado Close-up Planet, que trazia uma escalação que dava vontade de pegar um ônibus para o Paraguai, só para ficar o mais longe possível dessa mistura tão revolucionária quanto uma feijoada mal-digerida: Barão Vermelho, Erasure, Charlie Brown Jr e, atenção,…Skamoondongos. 🤢
Revoltado, decidi que deixaria essa passar e jogaria para o futuro uma chance para o velho David se recuperar, tornar-se relevante de novo e, num retorno triunfal, ter um último ato da carreira que o redimiria desse pântano todo. Imaginava que Bowie se transmutaria e poderia dar uma proverbial 8ª ou 9ª volta por cima na carreira, em algum momento.
Já dou spoiler: isso aconteceu, de fato. Mas eu nunca mais tive a chance de vê-lo ao vivo.
2.
É certo que no final dos anos 1980 Bowie perdeu o pulso da música pop e chegou ao seu ponto mais baixo com o horrível Never Let Me Down (disco de 1987), que tem o efeito contrário do título para quem ouve. É, talvez, o pior disco lançado por alguém do primeiro escalão da música.
Mas seu nome foi aos poucos recuperado pela geração 1980-1990 do rock alternativo dos EUA, como Sonic Youth, Pixies, Nirvana, Smashing Pumpkins, ou na própria Grã-Bretanha, com Pulp, Elastica, Suede e outras bandas da mesma época. Sua festa de aniversário de 50 anos, em 1997, juntou um verdadeiro Lollapalooza das bandas mais representativas dos noventa. Aos poucos, voltou a ser cool gostar de Bowie e seus discos da fase pré-anos 80 começaram a ser redescobertos.
O Bowie que todos esperavam voltou finalmente em 2000, com um show histórico no festival de Glastonbury, quase 30 anos depois de sua estreia no festival (e última participação até então). Dizem que foi, talvez o melhor show da história de Glastonbury ou, no mínimo, no top 3 dos melhores. E o show é perfeito mesmo (foi lançado em disco há alguns anos). Só os clássicos, com uma grande banda, Bowie como o showman de sempre e de volta à velha forma, confortável demais no palco.
Lançou disco logo depois - Heathen, de 2002, que retoma a parceria antiga com o produtor Tony Visconti, da fase de Berlim (os três discos que Bowie lançou quando morava na capital da então Alemanha Ocidental). Músicas boas e com bons covers de Pixies e Neil Young, no disco mais consistente dele em muito tempo. A turnê do disco seguinte, Reality, parecia recolocar tudo no lugar certo e Bowie renascia para uma nova fase da carreira.
Em 23 de junho de 2004, Bowie teve um ataque cardíaco no palco, em Praga, República Tcheca. Continuou o show até o final, sem saber a causa da dor, mas a turnê foi cancelada logo depois. Em seguida, rolou uma angioplastia de emergência. Foi o fim de sua carreira ao vivo. Após a recuperação, Bowie submergiu e passou a viver uma pacata vida familiar em Nova York, longe dos palcos e dos estúdios por anos.
3.
Em 2013, Bowie estava lá em Nova York, feliz e quietinho na sua vida tranquila de papai DILF, quando apareceu do nada com um disco que ninguém esperava. The Next Day tem lugar destacado junto aos melhores discos que já fez. A capa é absolute design: sobreposto à capa de “Heroes", de 1977, há um quadrado branco com o título The Next Day em uma tipografia sem serifa, em preto. Indica bem o que vem no vinil; as músicas parecem recuperar e revitalizar todas as eras de Bowie - que são várias, na verdade.
Em 8 de janeiro de 2016, aniversário que Bowie divide com Elvis Presley (nascido apenas 12 anos antes de Bowie, mas que parece ser de outro século), mais um disco se materializou sem aviso. Foi lançado Blackstar, que é o disco mais experimental de Bowie desde a fase de Berlim, no final dos anos 1970.
Vistos em retrospecto, esses dois discos são, na sequência, uma reflexão sobre o passado e a própria história de Bowie, no primeiro disco; e sobre a morte, no segundo. Não por acaso, soam como a despedida de um dos maiores artistas do século XX.
Em 10 de janeiro de 2016, Bowie morreu em paz, após anos de tratamento contra um câncer.
Ashes to Ashes.
Não parece ser por acaso que a obra de Bowie foi perdendo fôlego ao se aproximar do século XXI. Sempre apontando para o futuro, Bowie é reflexo do pós-Guerra. Jovem nos anos sessenta, pegou todas as vanguardas artísticas da época, todas as ondas e modas. Até virou meme a entrevista nos anos noventa, em que ele fala sobre a então nascente internet e praticamente prediz o que aconteceria com redes sociais. O futuro, quando finalmente chegou, parecia bem menos interessante e diversificado do que aquele futuro que Bowie e outros haviam vislumbrado, anos antes.
Bowie sempre esteve à frente; quando recuperavam sua música como influência, ele já estava em outra onda, que influenciaria uma geração seguinte. Foi um dos poucos grandes artistas dos anos 1970 a ser poupado pelo Punk e até mesmo nos noventa, fase de baixa na carreira, foi importante (vide Nirvana fazendo cover de uma música até então pouco presente no repertório de Bowie).
Qualquer jornalista preguiçoso já taca logo o adjetivo ‘camaleão’ em David Bowie. Alguém inventou essa há anos e quem não quer pensar muito já adota. Mas Bowie teve, de fato, muitas mudanças na carreira. Criava personagens para cada disco; “matou” Ziggy Stardust, sumiu com Alladin Sane, abortou o Thin White Duke quando foi acusado de apologia ao fascismo (nesse caso, Bowie sacou rapidinho que fazer um comentário irônico sobre o caráter assustadoramente fascista de concertos de rock de arena nos megalomaníacos anos setenta não daria muito certo, com um público pouco acostumando a nuances). Cada período trazia seu protagonista, sua narrativa, sua história. E Bowie encerrava cada fase da carreira fechando o pacote todo e montando um novo personagem e uma nova história.
Em setembro de 1980, Bowie lançou seu último grande disco, Scary Monsters. Na música Ashes to Ashes, retomava seu personagem clássico, Major Tom - e, num plot twist, revelava que Major Tom era um junkie. Toda aquela história de espaço sideral da música que o fez famoso era uma viagem alucinógena e agora Major Tom estava numa ressaca abissal, pós-onda boa. Era um aviso do final dos intensos setenta para os caretas oitenta. John Lennon foi assassinado logo depois e Bowie cancelou a turnê após um único show, chocado com a morte do grande amigo.
Ressurgiu anos depois, em uma nova persona, de terno colorido e jeito de popstar, adequada à era conservadora de Tatcher e Reagan, mas ao mesmo tempo transgressora; era mais pop e pra cima, quase como se prestasse um serviço de utilidade pública, ao manter a cabeça erguida e continuar a festa, num mundo selvagemente conservador e dominado por gente travada e perversa. Let’s dance, dizia seu hit single. Apesar do sucesso, esgotou-se em poucos anos e entrou numa fase de baixa, da qual só se recuperou no novo século.
Seus últimos dois álbuns nos anos 2010, com músicas sobre mortalidade, fantasmas do passado e reflexões sobre a vida, parecem fazer parte de um mesmo conceito e funcionam como um fechamento de mais uma era, como aconteceu antes em outros momentos da carreira de Bowie. Mas, dessa vez, ele não ressurgiu. Foi o ato final.
Hoje, estamos de volta a um novo ciclo de conservadorismo, tacanho, burro e perigoso, como aconteceu no começo dos anos oitenta. Sem Bowie, é um mundo muito pior para se estar.
Para fechar, uma história ótima de Dylan Jones, grande jornalista e o melhor biógrafo de David Bowie.
Durante as pesquisas sobre Bowie para o livro, Dylan foi visitar o pai idoso e contou sobre o que estava escrevendo. Falou entusiasmado sobre a performance de Bowie no Top of the Pops (programa da TV britânica com a parada de sucessos da semana), e contou sobre como essa performance de Bowie na TV mudou tudo para ele naquela época, ao mesmo tempo em que também tudo mudou na música, na moda, na sociedade, no sexo; Dylan lembrava com detalhes desse programa que viu quando era pré-adolescente. Falava com propriedade sobre o quanto era transgressivo, desde as cores fluorescentes das roupas até o cabelo vermelho de Bowie, a explosão de cores que até então era inimaginável e como essa performance marcava o momento em que finalmente os anos setenta escapavam da Grã-Bretanha monocromática e entediante do passad
Durante todo esse monólogo, o pai de Dylan ficou em silêncio. Numa pausa do filho, falou: “Você lembra que a nossa televisão era em preto e branco, não?”



Bowie foi a primeira baixa num ano maldito que nos levou demasiados ícones da musica, da cultura, da minha juventude.
David Bowie, Glenn Frey, Prince, Leonard Cohen, Keith Emerson, George Michael.
A sua musica continua a fazer parte activa da banda sonora da minha vida, e como acredito que apenas se morre quando morre a última pessoa que nos recorda, por mim eles vão continuar por cá.
https://www.youtube.com/watch?v=fICsHinJNbc&list=RDfICsHinJNbc&start_radio=1