O livro dos seres imaginários
Três anos depois, memórias de uma época que desaparece aos poucos.
Locked Groove é o último sulco do vinil, quando a agulha para no final de um dos lados. Não tem tradução boa para o português - ranhura bloqueada é técnica e sem graça demais.
É aquele momento em que as conversas avançam enquanto o disco está rodando, sem música alguma. Ao mesmo tempo em que busca outro disco ou vai trocar o lado, você continua uma história, ou começa qualquer assunto que valha a pena: drinques, viagens, livros, música, o que for.
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Intro.
10 de setembro de 2020, 14h35
Dopamina
Fentanil
Noradrenalina
Manitol
Antropina
Midazolam
Nipride
Numa prancheta deixada numa bancada ao lado de onde estou, li aleatoriamente os nomes de remédios disponíveis na UTI. Alguns eu reconheci - como o Fentanil, que me faz esboçar um leve sorriso. Instintivamente, olhei para os lados para ver se alguém reparou. Mas lembrei que estava com máscara. E com luvas. E com roupa protetora.
A UTI era nova, em tons de salmão, azul claro e branco. Equipamentos novos. Memorizei a sequência dos números que apareciam nos aparelhos ao lado da cama. Sabia ver qual a saturação, qual a pressão, quais os batimentos cardíacos. Estavam estáveis desde a visita da noite anterior.
Na verdade, estáveis desde antes ainda - dias e dias de estabilidade, em completo estado de sedação. Coma induzido. O que não era exatamente bom. “O corpo precisa reagir” dizia a médica, ao meu lado, “Estamos fazendo o que é possível, mas se o corpo não reage, não adianta ter estabilidade".
Ela terminou de falar comigo e passou para a cama ao lado. Cada cama, nessa UTI, fica em uma câmara fechada por vidro. As visitas são permitidas por meia hora em cada período - manhã e noite - e sem entrar no cubículo de vidro. Fiquei observando os números que mudavam e piscavam constantemente nos aparelhos. Olhei para o relógio da parede. Pensava se deveria ir embora ou não - depois da conversa com a médica, não havia mais interação alguma e eu estava sozinho em frente à janela.
Mas fiquei. Até chegar ao final dos 30 minutos. Segui pelo corredor que já conhecia bem e tinha a impressão de saber até quantos passos daria até à porta. Tirei a roupa protetora e joguei num cesto, tirei as luvas e joguei em outro; lavei as mãos cuidadosamente, apertei o botão que abre a porta da UTI com o cotovelo.
A partir dali, segui pelos corredores sempre vazios, até a rua. Para esperar.
Fazia isso há dias.
Sempre os mesmos movimentos.
Sempre a mesma sequência.
Sempre a mesma espera.
Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei.
Assim começa O Estrangeiro, de Albert Camus. Uma das frases iniciais mais famosas da literatura. É de uma concisão impressionante: em uma frase simples, revela-se muito de Meursault, o protagonista. Livros inteiros já foram escritos sem chegar à essência de um personagem, ao contrário do que faz essa única frase.
Lembrei dessas palavras hoje, quando peguei o trecho acima, de um texto que publiquei há dois anos.
Desde então já se passou muita coisa. Já havia passado, inclusive, um ano desde o 12 de setembro de 2020, quando fui chamado com meus irmãos ao hospital onde minha mãe estava internada, na UTI de COVID.
É protocolo hospitalar chamar a família nessas horas. Mas nem precisava: quando ligaram, já sabíamos do que se tratava. Restava apenas seguir com o que havia sido definido por alguém muitos anos antes (quando deve ter começado esse protocolo? Será que alguém registrou essa história em algum momento?).
Deveríamos seguir pelos corredores pelos quais passamos por dias e dias, tantos que já conhecíamos todas as curvas, degraus e portas. Nem precisei me identificar ao chegar na recepção; já sabiam do que se tratava. O médico falou na porta da UTI, o rosto escondido pela máscara. Todos os rostos, na verdade - apenas os olhos se mostravam. Não sei até hoje qual o rosto do médico, da médica com quem havia falado no dia anterior, da recepcionista, de ninguém com quem havia cruzado nos corredores nos vários dias que passamos por ali. Poderiam ser pessoas imaginárias, sem rostos - ao relembrar esses dias eu poderia colocar os rostos que quisesse, como se montasse um elenco que mais me agradasse.
O próprio hospital parece, hoje, imaginário também. Nunca mais estive lá. Depois de passar mais de 20 dias indo todos os dias ao mesmo lugar, andando pelos mesmos corredores, não lembro sequer o nome da rua onde fica o hospital, agora que já se passaram tantos anos. Como num sonho, penso que, se passar pelas mesmas ruas e estacionar onde sempre estacionava, não encontraria mais o hospital. Ou, se encontrar, talvez não reconheça nada.
O apartamento da minha mãe foi desmontado logo depois. Ela havia se mudado para a cidade de meu irmão Henrique, quando meu pai ficou doente. Morou por cinco anos em um apartamento alugado, que foi mobiliado com os móveis que ela já tinha há muitos anos. Voltamos com tudo para a casa antiga, que continuava onde sempre esteve. Alguns dias depois, parecia que os móveis nunca haviam saído de lá - estava tudo como eu lembrava que era, quando eu ainda morava nessa casa, antes de sair para a faculdade em São Paulo.
Meu pai morreu anos antes da pandemia. A única vez que vi seu túmulo foi quando minha mãe foi enterrada no mesmo lugar, na cidade para onde se mudaram. Quem procurar por um túmulo deles na cidade onde nasci (e onde minha mãe nasceu) não encontrará nada - como se talvez nunca tivessem existido naquela cidade.
Em 2023, a pandemia de COVID parece ser uma lembrança distante. Como aquelas histórias que todos contam, meio como lendas urbanas que ninguém presenciou de fato.
Até houve uma CPI para apurar (ir)responsabilidades da pandemia - deu em nada. Assim como nada aconteceu com o presidente e seus homens de verde-oliva, que aparentemente trataram a pandemia como um “jogo de guerra", um exercício fantasioso de manobras militares em que nada é para valer, uma eterna preparação para uma eventual necessidade. Na aparência de um jogo de guerra, todos parecem estar em uma emergência real; na realidade, nada acontece com quem comete erros, é incompetente, imprudente ou simplesmente vagabundeia até terminar o treinamento.
No esquecimento da pandemia, os crimes, erros, omissões e impunidades reais passam por imaginários - talvez, até, por sua natureza absurda.
Uma vez meu pai falou que deixava para minha mãe essa parte de leitura, cultura e tal. Que ela cuidasse disso para os filhos. Da parte dele, o que ficava era assistir juntos as lutas de boxe nas madrugadas, ensinar a jogar sinuca, jogar futebol - era tão competitivo que se empenhava ao máximo e nunca perdia uma partida de sinuca ou soltava a bola no futebol; na verdade, sequer dava um passe para seu próprio time. Se não fosse a má-forma que o fazia cansar em cerca de cinco minutos, jogaria por horas com a bola presa no pé, como um Denílson do Monte Olimpo.
Minha mãe estimulava a leitura e sempre houve muitos livros em casa. Eu nem lia o que havia nas estantes, mas sempre olhava para umas capas de livros escandalosas de Harold Robbins ou Cassandra Rios. Durante anos li mais histórias em quadrinhos e só fui começar a ler algo mais ‘sério’ quando já tinha uns 16 anos. Mas li desde sempre as enciclopédias que ocupavam fileiras de estante em casa: havia uma Barsa gigante do final dos anos 1970 e uma outra bem mais antiga, Tesouro da Juventude, de 1958.
A Tesouro da Juventude foi criada pelo britânico Arthur Mee em 1908, sob o título original de The Children's Encyclopædia. Essa relíquia dos tempos Eduardianos (ó, cada coisa que a gente aprendia em enciclopédias - referente ao reinado de Eduardo VII, o príncipe herdeiro que detinha o recorde de ter levado mais tempo para assumir o trono, até ser ultrapassado por seu tetraneto Carlos III com a morte de Elizabeth II agora, agorinha mesmo).
Anos atrás, minha mãe deu para mim essa enciclopédia, que ela havia usado quando estava na escola. Desde criança achei fascinante: explicava didaticamente muitas dúvidas comuns de um jovem leitor. Em uma edição, falava que o homem chegaria à lua só em 1973, uma vez que havia desafios gigantes ainda a se resolver no programa espacial norteamericano (soviéticos, aparentemente, não eram dignos de menção alguma). Na sequência, falava que, depois da lua, seria mais fácil chegar a Marte - uma missão tripulada deveria pousar no planeta vermelho em…1984. Em outro artigo, ensinava o funcionamento de um lança-chamas, com uma foto de um soldado dos EUA orgulhosamente em plena ação, queimando tudo até a última folha (e eu nem pensava que talvez isso fosse crime de guerra, passível de condenação por tribunal internacional).
Uma treta boa foi quando descobriram em Kashmir, na Índia, que uma das ilustrações da Enciclopédia na versão original inglesa trazia o Arcanjo Gabriel ditando trechos do Corão para Maomé. Mulçumanos em fúria pela heresia queimaram todas as edições que encontraram. Revoltas na província deixaram centenas de mortos e feridos. Resolveu-se tudo ao proibir a venda da coleção. Pouco importava que fazia décadas que a enciclopédia já havia esgotado e nunca mais reimpressa.
Em outras seções, li sobre o que importava para a vida: piratas, dinossauros, Guerras Mundiais, resumos de livros clássicos de aventuras, Fábulas do Esopo. Quem precisa saber algo mais além disso?
Havia também uma seção que chamava “O Livro da Terra”, que falava em detalhes sobre os bichões fantasticamente reais como baleias, elefantes, rinocerontes e cobras venenosas, mas também sobre seres mitológicos como sereias, tritões, polvos gigantes, dragões alados e outras fofuras.
Ler essa enciclopédia tantos anos depois, a despeito de seu total anacronismo e desatualização, era interessante por um motivo específico: não deixava morrer essas informações de outra época, de outro mundo. Ler um volume desses deixava sempre em mim uma sensação daquelas bibliotecas britânicas cheias de livros e segredos arcanos.
Anos depois, dei de presente para minha mãe um livro de um famoso anglófilo dessas bandas do hemisfério sul, Jorge Luis Borges. Um fã de enciclopédias e de informações aparentemente anacrônicas, Borges foi diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires - nada mais adequado para alguém que era obcecado por bibliotecas, labirintos e sonhos. Esse livro que dei era o Livro dos Seres Imaginários, publicado originalmente no México, em 1957.
Borges descreve seres fantásticos do folclore, da tradição oral de diversas culturas, mitologias, livros e autores de ficção. Fala do Golem, de Leviatã, Lêmures, o gato de Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll, demônios, ninfas, sereias, dragões e grande elenco. Fala de animais sonhados e descritos por Poe, Kafka, C.S. Lewis. Um verdadeiro Manual de Zoologia Fantástica, seu título original.
Minha mãe lia um pouco do livro a cada dia. Voltava a reler trechos depois de um bom tempo, divertia-se sempre ao contar algumas das descrições de todos esses seres imaginários sonhados desde o começo da história da humanidade. Cada vez que a visitava eu ficava sabendo de mais um desses bichos.
Depois, em algum Natal, dei de presente para ela os 4 volumes com a obra completa de Borges.

11 de setembro de 2020, 14h05
Dopamina
Fentanil
Noradrenalina
Manitol
Antropin
Olhava para a prancheta de remédios, com a lista já havia decorado de tantas vezes que li. Esperava o médico vir falar comigo, mas já sabia que não havia grande mudança do dia anterior para então. As enfermeiras olhavam para mim - algumas estavam na noite anterior, quando soube que a saturação havia caído e não subia mais. Passavam por mim e olhavam solidárias. Os olhos eram a única parte do rosto que eu conseguia ver. Esperei.
Perguntei para uma enfermeira para que serviam esses remédios.
‘Esse aqui é para evitar a dor’ contava, apontando com o dedo para a prancheta. ‘Esse, para manter a circulação do sangue'.
‘Esse aqui’ apontou para outro nome, que não guardei qual era ‘é para não criar memórias. Para manter ela sedada e inconsciente.’
‘Então ela não está sentindo nada? Não tem a mínima consciência de nada o que acontece?’ perguntei, observando o que pareciam ser suspiros profundos da minha mãe no respirador, com um movimento que quase fazia o tronco levantar na cama.
'Não. Ela não tem ideia do que acontece aqui. Não sente dor e não vai criar memórias também. Ao sair da UTI, não terá memória alguma disso tudo'.
Não criar memórias. Uma boa forma de evitar a dor.
Três anos depois, os livros com a obra completa de Borges estão na minha estante. Ficaram fora por todo esse tempo, emprestados.
Li pouco. Um ou outro conto. Talvez agora seja o caso de iniciar a leitura. Sem pressa: lendo um pouco de vez em quando, retomando depois de um tempo. São milhares de páginas de labirintos, bibliotecas, sonhos, memórias, seres imaginários. Uma enciclopédia em si, talvez. Pode ser a hora certa de começar, agora que já passou um tempo e posso abrir esses livros.
Depois de três anos, parece haver um esforço grande para deixar as memórias da pandemia para trás, como se fossem sonhos intranquilos dos quais despertamos. Não culpo ninguém que se esforça para isso. Talvez a melhor forma de evitar a dor seja, ao fim e ao cabo, evitar também as memórias.

Vivi essa realidade de perto, prescrevendo midazolam e fentanil para apagar tristes memórias daqueles pobres. Muitas vezes olhava alguém no leito e pensava que podia ser eu: minha idade, meu peso, mesmo perfil socioeconômico. Alguns colegas médicos.
Desses 800.000 mortos, uns 40 atestados de óbito foram assinados por mim. Cerca de quarenta famílias receberam essa fatídica notícia através da máscara que tampava minha boca.
Me lembro de muitas vezes pedir que as pessoas não levassem as mãos aos olhos após receber a notícia e começarem a lacrimejar, com medo de que as mãos sujas de corrimãos e botões de elevadores hospitalares lhes transmitisse COVID.
Me lembro também do sentimento de desprezo quando algum familiar terraplanista me perguntava se estávamos dando cloroquina. Ou do misto de ódio e dor que senti quando dei notícia de óbito de uma mãe. Um dos irmãos levou COVID pra ela no dia das mães, ao duvidar da doença.
Tenho certeza que não há remédio que me faça não lembrar do que vivemos.