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Vivi essa realidade de perto, prescrevendo midazolam e fentanil para apagar tristes memórias daqueles pobres. Muitas vezes olhava alguém no leito e pensava que podia ser eu: minha idade, meu peso, mesmo perfil socioeconômico. Alguns colegas médicos.

Desses 800.000 mortos, uns 40 atestados de óbito foram assinados por mim. Cerca de quarenta famílias receberam essa fatídica notícia através da máscara que tampava minha boca.

Me lembro de muitas vezes pedir que as pessoas não levassem as mãos aos olhos após receber a notícia e começarem a lacrimejar, com medo de que as mãos sujas de corrimãos e botões de elevadores hospitalares lhes transmitisse COVID.

Me lembro também do sentimento de desprezo quando algum familiar terraplanista me perguntava se estávamos dando cloroquina. Ou do misto de ódio e dor que senti quando dei notícia de óbito de uma mãe. Um dos irmãos levou COVID pra ela no dia das mães, ao duvidar da doença.

Tenho certeza que não há remédio que me faça não lembrar do que vivemos.

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